A dura experiência das cambojanas vendidas como esposas na China

Ricardo Pérez-Solero.

Prey Veng (Camboja), 20 dez (EFE).- A carência de mulheres na China e o alto custo dos dotes alimentam o tráfico humano em países menos desenvolvidos, como o Camboja, onde jovens de famílias pobres são vendidas como esposas para pretendentes chineses.

Este foi o caso de Chrek Thavy, nome fictício para proteger sua identidade, que em 2013 se encontrou com um grave problema: seus pais adoeceram e a família de 12 irmãos não podia pagar o tratamento.

Uma vizinha lhe propôs então ir trabalhar na China, lhe ofereceu para pagar as despesas de viagem e os documentos, e Thavy acabou aceitando a oferta sem saber que seria obrigada a se casar com um homem.

"Não tinha certeza e não tinha confiança, pensei muito na situação, meus pais estavam muito mal e necessitavam do dinheiro", declarou Thavy à Agência Efe em sua modesta casa em Prey Veng, ao leste de Phnom Penh.

Como Thavy, muitas mulheres cambojanas são enganadas para se casar com cidadãos chineses, e em muitos casos sofrem abusos sexuais e físicos, segundo denuncia um estudo da ONU deste ano.

Embora não existam números oficiais, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Camboja, Chum Sounry, indicou que 857 destas mulheres foram repatriadas da China em 2015.

Por sua vez, o governo chinês reconhece sete mil casamentos entre chineses e cambojanas, embora o subsecretário do comitê cambojano de luta contra o tráfico, Chou Bun Eng, garantiu em agosto ao jornal "Cambodia Daily" que só 100 casais se registraram antes de deixar o país.

Sara Piazzano, diretora do programa contra o tráfico da organização Winrock, assegurou que as coisas estão melhorando agora que China e Camboja estão elaborando um memorando de entendimento.

"É muito importante porque a China tem que reconhecer que este problema existe e que é preciso chamar de tráfico humano. Antes os chineses sempre negavam, diziam que era só violência doméstica", disse Piazzano.

No caso de Thavy, pelo menos outras duas pessoas mediaram sua mudança para a China, uma mulher que a acompanhou na chegada a Phnom Penh, e um homem que indicou à polícia de imigração do aeroporto que Thavy "era sua cliente" e para que a deixassem passar.

No aeroporto de Guangzhou, no sudeste da China, foi recebida pela filha da vizinha com a qual empreendeu uma longa viagem de trem.

Foi após chegar à casa desta mulher que Thavy soube que devia se casar com um homem quatro anos mais jovem que ela.

A princípio, a família política a tratou bem, mas seu marido não a deixava sair de casa para trabalhar como ela queria e, quando se queixou, este lhe esclareceu suas intenções.

"Ele me disse que tinha me comprado e trazido de meu país e que queria que tivesse um filho com ele, que não queria que eu fosse trabalhar", relatou Thavy.

"Senti frustração e, sem esperança de convencer meu marido a voltar para casa, fiquei grávida", acrescentou.

A partir desse momento, a cambojana explicou que foi "uma servente mais do que um membro da família", e que, quando deu à luz, a família não se alegrou já que sua filha era uma menina e, portanto, não poderia manter a família no futuro.

Thavy viveu três anos sem poder sair daquela casa e sem se atrever a falar com sua família, como ocorre com muitas das vítimas por causa da culpa e do medo do estigma ao retornar.

"Minha sogra me disse que pagou 100 mil iuanes (cerca de R$ 47 mil) por mim e que se eu pagasse essa quantia outra vez, poderia voltar ao Camboja", contou a mulher.

Após sofrer um aborto na segunda gravidez, Thavy decidiu contar sua situação a um de seus irmãos, que ameaçou denunciar à polícia cambojana a vizinha que tinha traficado sua irmã.

Em junho, a família chinesa permitiu que a cambojana fosse visitar sua família com a condição de que a viagem durasse apenas duas semanas.

Thavy nunca retornou e a vizinha que lhe recomendou viajar à China enfrenta um processo judicial, mas sua filha não pôde viajar com ela.

"Sinto saudades da minha filha, uma mãe sempre sente saudades de sua filha, mas decidi não voltar", comentou a cambojana.

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