Bálcãs têm menos refugiados, mas viagens ficam mais longas e perigosas

Antonio Sánchez Solís.

Viena, 20 dez (EFE).- A passagem de refugiados do Oriente Médio em direção à Europa Central diminuiu em 2016 com o fechamento de fronteiras na rota dos Bálcãs e por conta do acordo de deportação da União Europeia (UE) com Ancara, mas milhares de pessoas continuam a percorrer um caminho mais longo e perigoso.

Se nos momentos mais críticos da onda de refugiados que começou em 2015 até 10 mil pessoas entravam por dia na Áustria pela fronteira húngara e depois pela eslovena, as autoridades austríacas passaram a interceptar no final deste ano no máximo 150 por dia, procedentes principalmente da Itália.

Esta mudança de tendência se deve a uma série de medidas e acordos que se iniciaram nos últimos meses. Primeiro, o governo austríaco pactuou em fevereiro o fechamento sucessivo das fronteiras com os países ao longo da rota balcânica.

Pouco depois, a União Europeia definiu com a Turquia o polêmico acordo de devolução de refugiados das ilhas gregas em troca de ajudas econômicas e o envio de outros refugiados de forma organizada à Europa.

"Basicamente, é possível dizer que a rota dos Bálcãs está fechada, mas não está 100% fechada. Os traficantes tentam trazer as pessoas agora independentemente das rotas, a pé pelas fronteiras. As pessoas são abandonadas, escondidas em trens", disse em Viena o chefe do serviço austríaco de luta contra o tráfico de pessoas, Gerald Tatzgern.

Por um lado, a polícia turca está evitando que muita gente cruze a passagem rumo à Grécia. Por outro, as rígidas medidas de controle aplicadas por vários países, como Hungria e Bulgária, fizeram com que o fluxo migratório por esta rota tenha diminuído.

Mas o caminho não foi fechado e, embora a comparação com o ano de 2015 não proceda, por ter sido um período excepcional, se os números atuais forem cruzados com os de 2014, "a tendência é que mais gente quer vir", considerou Tatzgern.

Um dos efeitos deste "fechamento" foi que a viagem se tornou muito mais longa e também surgiram novas estratégias que o fazem mais perigoso, como o uso de vagões de mercadorias, nos quais os refugiados são embarcados na Turquia e passam dias inteiros sem sair.

"Não podem sair por conta própria (dos vagões), mas acreditam que o traficante esteja no lugar a tempo para recolhê-los", explicou Tatzgern.

De acordo com o especialista, o fechamento desta via não parece influir sobre a onda de chegadas do Mediterrâneo rumo à Itália e as duas rotas não são "comunicantes".

"Nessa rota, não vimos nenhum sírio e poucos afegãos. Isso significa que a rota da Itália e do Mediterrâneo é quase exclusiva da África. Eritreus, somalis, nigerianos e de outros Estados, como Marrocos e Argélia", diferenciou.

O ano de 2016 também foi marcado pelas aprovações de novas legislações e medidas mais rígidas e polêmicas contra a chegada de refugiados.

A Hungria, que em 2015 foi o primeiro país a erguer muros, continua a aplicar a rigorosa lei antimigratória que prevê penas de prisão a quem entrar no país irregularmente.

Além disso, os refugiados que são detidos na faixa dos oito primeiros quilômetros de território são enviados ao outro lado da fronteira com a Sérvia e a Croácia. Neste local, ficam durante dias em terra de ninguém, quase sem receber serviços, enquanto esperam que a Hungria tramite suas solicitações de asilo.

Várias ONGs, como Anistia Internacional e Human Rights Watch, denunciaram o tratamento violento e os abusos sofridos pelos solicitantes de asilo a mãos das autoridades húngaras.

Além disso, o governo conservador nacionalista convocou um referendo para rejeitar o repartição solidária de refugiados na UE. Após uma campanha cheia de mentiras e na qual os refugiados foram vinculados ao terrorismo, o resultado foi invalidado já que nem metade da população compareceu para votar.

O mais contundente apoio às teses do governo foi do primeiro-ministro, Viktor Orban, como um sinal de que os húngaros rejeitam as "imposições" da UE e a chegada de estrangeiros.

Na Áustria, o governo formado por sociais-democratas e conservadores decidiu que não aceitará mais de 37,5 mil solicitações de asilo neste ano (em 2015 chegaram 90 mil refugiados), apesar das críticas e advertências de que esse limite vulnera as obrigações internacionais do país.

A mensagem da islamização e do medo ao terrorismo foi utilizada na Áustria pelo ultranacionalista Norbert Hofer, que baseou sua campanha presidencial nesta linha. Mas a vitória eleitoral foi do progressista Alexander Van der Bellen, filho de refugiados que fugiram da Revolução Russa de 1917 e com uma postura muito mais aberta à imigração.

Na Bulgária houve um crescimento do medo em relação aos refugiados, com o surgimento de unidades paramilitares que caçaram imigrantes perto da fronteira com a Turquia, cada vez mais cercada.

Foi neste local onde começou a operar em outubro a nova agência de vigilância de fronteiras da UE, que substitui a Frontex, um órgão que por falta de meios e competência não pôde fazer quase nada para lidar com a onda de refugiados.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos