Túnel de Sarajevo: 800 metros de esperança no meio da guerra

Antonio Sánchez Solís.

Sarajevo, 20 dez (EFE).- O número 34 da vila Donji Kotorac foi durante 30 meses a porta da esperança para milhares de pessoas presas em uma Sarajevo sitiada pelos sérvios. A casa era a saída do túnel que conectava a cidade com a Bósnia livre, uma passagem subterrânea que ainda hoje é chamada de "túnel da vida".

Edis Kolar ainda lembra quando, em 1993, o então presidente bósnio, Alija Izetbegovic, chegou em sua casa e informou a seu pai que ali seria a saída do túnel que conectaria a cidade com o resto do mundo.

"Não havia outra possibilidade", lembrou à Agência Efe Kolar, que naquela época era um jovem soldado de 17 anos no exército bósnio.

Após a guerra (1992-95), Kolar tomou conta do museu construído em sua antiga casa, que em 2012 passou a ser administrado pelo governo.

Ainda é possível percorrer os últimos 25 dos 800 metros que tinha o túnel, pelo qual passaram dois milhões de pessoas ao longo de 30 meses.

Com a cidade cercada pelas forças bósnias desde abril de 1992, a única entrada e saída era uma estrada próxima ao aeroporto que estava sob constante fogo de franco-atiradores e artilharia por parte das forças servo-bósnias.

O túnel, construído à mão por membros do exército e voluntários civis durante quatro meses e quatro dias, se tornou a única alternativa a essa perigosa rota e permitiu abastecer a cidade para resistir aos 1.425 dias de ataque, o mais longo na história moderna. Cerca de dez mil pessoas morreram durante o cerco a Sarajevo.

A função inicial da passagem subterrânea foi levar armas e munição à cidade, mas também foi usada para enviar soldados a outras frentes, permitir a fuga de civis e transportar alimentos, combustível e eletricidade. "Não teríamos a menor chance sem o túnel", afirmou Kolar.

Mais de cinco milhões de quilos de comida, quatro milhões de litros de combustível e outros tantos de material militar entraram em Sarajevo pela passagem de 1,5 metro de altura e 1 metro de largura, construída a cinco metros de profundidade.

Um cabo de alta tensão estendido pelo túnel forneceu eletricidade a hospitais e outros edifícios de vital importância. No solo foram instalados trilhos para vagões de carga no transporte.

Kolar assegurou que, a princípio, os sérvios não tentaram deter a construção do túnel, projeto sobre o qual foram informados por espiões.

Ratko Mladic, chefe militar servo-bósnio durante a guerra e que está sendo julgado por genocídio em Haia, ordenou não bombardear o túnel pensando que serviria para evacuar a cidade e deixá-la nas mãos sérvias, contou Kolar.

"Não se pode evacuar 300 mil pessoas. Estávamos defendendo nossas famílias", explicou Kolar, que afirmou não ter lutado não por não ser patriota, mas porque tinha que defender os seus.

Hoje em dia, o Museu do Túnel da Vida é uma grande atração turística e visita obrigatória em Sarajevo.

Além de percorrer os 25 metros ainda possíveis, uma pequena mostra exibe uniformes, material bélico, fotos e documentos relacionados ao cerco e à construção do túnel.

Há anos existem planos para reabrir a totalidade dos 800 metros do traçado original, embora "na Bósnia nunca se saiba quando terminam os planos", lamentou Kolar.

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