Protesto solitário completa 1 ano em frente a ministério chinês

Antonio Broto.

Pequim, 21 dez (EFE).- Aziguli Tuerxun, de 54 anos, é da etnia uigur (muçulmanos que vivem no noroeste da China) e protesta sozinha há mais mais de um ano diante do Ministério das Relações Exteriores da China, o que faz dela uma das mais insistentes manifestantes do país.

Sem sinais de desistência, ela se senta na calçada e exibe um cartaz com a mensagem "Amo a China, mas também quero que a China me ame", ao lembrar que o presidente Xi Jinping prometeu que haveria um Estado de Direito, e conta seu problema, que começou há quase 25 anos.

"Em 1992, trabalhei para uma empresa da Mongólia que vendeu mercadorias por US$ 550 mil ao Turcomenistão, mas o banco estatal desse país (uma das ditaduras mais isoladas do mundo, na Ásia Central) não me permitiu sacar o dinheiro", explica Tuerxun.

A mulher começou então uma longa jornada pelas burocracias bancárias do Turcomenistão e da China, tentando recuperar o dinheiro perdido ou alguma indenização, e acabou pedindo justiça na rua.

"Estou há 10 anos pedindo ajuda ao Ministério das Relações Exteriores. Já me receberam algumas vezes, mas nada funciona", relata Tuerxun, cuja situação se agrava por ter um filho de 36 anos com leucemia e acumular uma dívida tão grande que a impede de retornar a Xinjiang (noroeste), sua região de origem.

Tuerxun deve aos bancos dessa região do noroeste chinês cerca de 10 milhões de iuanes (R$ 4,8 milhões) em juros pelo empréstimo que pediu para tentar resolver há mais de 20 anos o fracassado negócio no Turcomenistão.

"Me sinto desesperada", confessa a uigur, que em algumas ocasiões recebeu empurrões e gritos dos guardas que vigiam o acesso ao Ministério, sobretudo quando algum jornalista estrangeiro tentou se aproximar para entrevistá-la.

"Já me ameaçaram, mas agora me ignoram", diz a mulher sobre os policiais, garantindo que não tem "medo de nada".

Tuerxun mora em Shilihe, bairro do sul de Pequim onde reside uma grande comunidade uigur, e se mantém graças à mãe (que a cada mês a repassa 1,5 mil iuanes - cerca de R$ 720 - da aposentadoria), a outras doações modestas dos irmãos. Para complementar essas quantias, ela ganha dinheiro vendendo iogurtes na rua.

O ex-marido, de quem se divorciou em 1986, tem a guarda dos dois filhos do casal, e o mais velho, com leucemia, escondeu por muito tempo os problemas de saúde e econômicos para que a mãe não sofresse.

Essa é apenas uma das várias pessoas na China que veem esgotadas as vias judiciais e administrativas para resolver o que consideram injustiças e vão a Pequim para ver se algum representante do governo pode ajudar, uma prática com séculos de tradição no país.

Antigamente as pessoas tentavam falar com o imperador, ajoelhando-se aos pés do líder caso conseguissem se aproximar o suficiente, e agora tentam suplicar aos líderes do Partido Comunista.

Para isso, muitos cidadãos procedentes de todas partes do país viajam para Pequim nas épocas em que são realizadas grandes reuniões, como congressos do partido e assembleias legislativas anuais, e vivem em situação precária na capital até que alguém se disponha a escutar.

O governo chinês tem um escritório estatal teoricamente encarregado de atender essas queixas, mas o poder de atuação desse órgão é baixo e costuma ser apenas uma tentativa de acalmar ânimos para que as pessoas desistam de protestar publicamente.

Durante anos foram denunciados casos de manifestantes que eram agredidos pela polícia, obrigados à força a sair de Pequim, ou até mesmo detidos em "prisões negras", as prisões ilegais cuja existência não é reconhecida por Pequim.

Todas estas experiências negativas não parecem assustar Tuerxun, que já foi detida duas vezes no Turcomenistão e que com chuva, neve, poluição e calor continua a exibir seu cartaz em frente ao Ministério das Relações Exteriores chinês para pedir ajuda.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos