Em um ano, governo nacionalista deixa a Polônia mais dividida do que nunca

Nacho Temiño.

Varsóvia, 22 dez (EFE).- A sociedade polonesa está profundamente dividida após um ano do partido nacionalista e conservador Lei e Justiça no poder, uma força tachada de populista pela oposição e cujas reformas foram questionadas pelas instituições europeias.

O Lei e Justiça (PiS, sigla em polonês) ganhou as eleições gerais de outubro de 2015 com a primeira maioria absoluta da democracia moderna polonesa, graças, especialmente, ao apoio de idosos, população rural, parte do clero católico, trabalhadores sem formação e, em geral, ao descontentamento com a globalização.

A partir daí, o partido pôs em prática uma agenda que combina uma economia social própria da esquerda com um rançoso tradicionalismo, alinhado com políticas nacionalistas, se distanciando de Bruxelas e com uma clara oposição para acolher refugiados.

Embora seus partidários aplaudam suas medidas, o número de críticos aumentou até o ponto em que toda a oposição se uniu em um único bloco contrário ao governo da primeira-ministra Beata Szydlo, que é liderado a partir da sombra pelo presidente do PiS, Jaroslaw Kaczynski.

"A Polônia está doente e sofre com a falta de democracia", afirmou em entrevista à Agência Efe o líder do Comitê em Defesa da Democracia (KOD, sigla em polonês), Mateusz Kijowski, um movimento popular que nasceu há um ano para lutar contra o Lei e Justiça e que conta com cerca de 8 mil integrantes, fundamentalmente profissionais liberais, professores e empresários.

O KOD organizou ao longo deste ano várias mobilizações contra as políticas do PiS e, em maio, com apoio do bloco opositor, conseguiu reunir cerca de 240 mil pessoas na capital Varsóvia naquele que é considerado o maior protesto desde a queda da Cortina de Ferro, embora o núcleo duro de eleitores do Lei e Justiça também tenha protagonizado vários atos de apoio ao Executivo.

Kaczynski gosta de insistir que protagoniza uma espécie de "contrarrevolução cultural" para conter a influência da União Europeia, que, na opinião do político, solapou as tradições polonesas e a cultura de seu país, e acusa os liberais de terem vendido a pátria aos interesses europeus.

Essa "contrarrevolução cultural" é especialmente incômoda para coletivos urbanos, europeístas, partidários da igualdade de gênero, do aborto, ambientalistas, defensores do casamento gay e, sobretudo, os que são favoráveis ao acolhimento de refugiados no país.

Mas o Lei e Justiça não fica apenas nas palavras e iniciou uma série de reformas que causaram temor em Bruxelas, especialmente a do Tribunal Constitucional e a nova lei dos meios de comunicação, que, segundo a oposição, submete os veículos de informação públicos ao controle do governo polonês.

A reforma do Tribunal Constitucional, que deixou praticamente paralisada esta instituição e impossibilita que ela controle de forma efetiva as políticas do Executivo, mereceu as críticas não só da Comissão Europeia (CE), mas dos Estados Unidos e de instituições internacionais.

A CE abriu em fevereiro uma investigação sobre esta polêmica reforma que poderia concluir com a suspensão do direito de voto europeu à Polônia como sanção, se for confirmado que a mesma infringiu os padrões democráticos e de direitos humanos da UE.

As políticas do PiS também trazem preocupação aos empresários locais, enquanto os investidores estrangeiros se sentem ameaçados por um governo que declarou prioritário promover os interesses nacionais, com impostos especiais para os setores dominados pelo capital estrangeiro.

Em entrevista à Efe no final de novembro, a presidente da confederação de empresários poloneses (Konfederacja Lewiatan, em polonês) e ex-ministra da Indústria, Henryka Bochniarz, reconheceu "o risco de que a Polônia seja percebida como um país "antieuropeu, antiquado e fechado" pelo "patriotismo econômico" do atual governo, que gera "incerteza" entre os empresários.

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