Segurança antiterrorista não justifica blindagem da fronteira EUA-México

Juan Luis Guillén.

Washington, 31 dez (EFE).- A segurança contra o terrorismo islâmico não justifica a blindagem da fronteira com o México proposta pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, embora o assunto seja muito volátil e possa mudar rapidamente, segundo os especialistas.

"Vamos pôr em prática um sistema de defesa histórico e com múltiplos níveis para que os cartéis da droga e os terroristas não entrem pelas fendas", disse recentemente o presidente do Comitê de Segurança Nacional da Câmara dos Representantes, o republicano Mike McCaul, que surgiu como possível escolha de Trump para a Secretaria de Segurança Nacional.

Mas, segundo os especialistas, no que se refere ao perigo do terrorismo islamita, até agora não se detectou que tenham usado a fronteira com o México como ponto de entrada ao país.

"Alguns congressistas americanos disseram ter informação de que grupos terroristas cruzaram a fronteira comum, mas nenhum deu evidência deste fato", disse à Agência Efe o ex-responsável de segurança fronteiriça na embaixada mexicana nos EUA, Gustavo Mohar, que hoje dirige o grupo de consultoria Atalaya.

Um destes casos é o de cinco sírios com documentação falsa interceptados em Honduras no final de 2015, que o presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes, o republicano Jeff Duncan, citou em várias ocasiões.

Segundo as autoridades hondurenhas, tratava-se de um grupo de estudantes que tinham passado por cinco países na busca de refúgio nos EUA e solicitaram asilo em Honduras.

A partir dos atentados do dia 11 de setembro de 2001, a cooperação entre México e EUA "permitiu entender que essa suposição (da infiltração terrorista pela fronteira) é muito relativa", afirmou Mohar.

No entanto, para alguns especialistas, a situação pode mudar rapidamente, já que "os jihadistas estão buscando constantemente novas oportunidades e modos de atacar", segundo o ex-coordenador de estratégia antiterrorista do governo dos EUA, Alberto Fernández.

"O fato de que haja um grupo mais internacional de pessoas tentando atravessar a fronteira (menos hispânicos e mais pessoas de outros continentes) significa que só é questão de tempo até que ocorra um atentado grave", disse Fernández à Agência Efe.

A Organização Internacional de Migrações e a Organização dos Estados Americanos detectaram um aumento do fluxo de imigrantes de Ásia e África vindos de Brasil, Equador e Colômbia através da América Central com destino a México e Estados Unidos, alguns deles procedentes de países na lista de vigilância americana, como Síria, Irã, Somália e Iêmen.

"A falta de percepção do risco pode ser um problema", disse à Efe Javier Martínez, funcionário jurídico do Comitê de Luta contra o Terrorismo do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O último relatório anual deste comitê classifica de baixa ou muito baixa a percepção de um risco deste tipo na América Latina, embora ele ressalte a ameaça da corrupção, a maior relação entre crime organizado e terroristas, e os indícios de que na região há simpatizantes prestando apoio financeiro a esses grupos.

"Muito do apoio aos terroristas no Hemisfério Ocidental é o das comunidades da diáspora ao Hezbollah em forma de apoio material, não atos de terrorismo", destacou Fernández.

Da mesma forma que em outras regiões do mundo, o apoio também se traduziu em recursos humanos. Segundo o Escritório de Luta contra o Terrorismo e o Extremismo Violento do Departamento de Estado, cerca de cem de cidadãos de América Latina e Caribe foram recrutados para combater com o grupo radical Estado Islâmico (EI).

Embora se trate de um número insignificante em comparação com os mais de três mil combatentes procedentes da Europa e inclusive inferior aos mais de 150 recrutados nos Estados Unidos, a preocupação se apoia no controle uma vez que retornam e sua relação com o extremismo violento já dentro de seus países.

"Passamos de um mundo de atentados dirigidos por terroristas a um mundo que inclui também atentados inspirados por terroristas, nos quais pessoas que vivem entre nós se radicalizam inspirados pela propaganda terrorista", advertiu recentemente o secretário de Segurança Nacional de EUA, Jeh Johnson.

"Houve latinos nos Estados Unidos como Enrique Márquez, no caso de San Bernardino, e Sixto García, no Texas, que se radicalizaram e colaboraram nos ataques", lembrou Alberto Fernández sobre esses atentados "inspirados por terroristas" nos EUA.

Segundo o diretor do FBI, James Comey, a polícia federal americana está investigando mil possíveis casos de extremismo violento nos 50 estados dos EUA.

Neste contexto de alarme constante, o eleito por Donald Trump para dirigir o Departamento de Segurança Nacional, o general John Kelly, antecipou há alguns meses sua visão sobre a ameaça do terrorismo e da criminalidade organizada na região.

"O crime organizado não só ameaça nossa segurança, mas também a estabilidade e a prosperidade de nossos vizinhos latino-americanos", disse Kelly em pronunciamento no Senado como chefe do Comando Sul dos EUA.

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