Guerrilheiros das Farc passam seu primeiro Ano Novo em paz

Ricardo Maldonado Rozo.

Conejo (Colômbia), 3 jan (EFE).- "Quero, ao invés de um fuzil, uma flor em minhas mãos", cantaram ao amanhecer de 1º de janeiro os guerrilheiros da frente 59 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que comemoraram no norte do país sua primeira festa de fim de ano em paz, após 52 anos de conflito armado.

Em um acampamento situado nos arredores de Conejo, um lugarejo no município de Fonseca, no departamento caribenho de La Guajira, os guerrilheiros festejaram o Ano Novo com a certeza de que seria o último fim de ano empunhando um fuzil.

A festa incluiu um jantar com carne de porco, frango, bolos, doces e chocolates, ao som de música tropical colombiana.

À meia-noite, quando todo o país dava boas-vindas a 2017, os guerrilheiros desta frente das Farc deram um abraço coletivo e transmitiram os melhores desejos para o ano que se inicia.

"Silfrido Mendoza", codinome de um guerrilheiro de 38 anos, 24 deles nas Farc, explicou à Agência Efe que comemorar o primeiro fim de ano prestes a deixar as armas "é um sonho que finalmente está se realizando e marca o ponto de partida para que daqui em diante se consolide ainda mais a tão desejada paz".

"Esta foi nossa esperança todo o tempo e finalmente aconteceu", acrescentou "Mendoza" no acampamento onde os guerrilheiros estão reunidos aguardando a ordem para que se transfiram à Zona de Vereda Transitória de Normalização (ZVTN) de Pondores, próxima a Conejo, onde farão a transição para a vida em sociedade.

Os guerrilheiros deveriam chegar às 20 ZVTN distribuídas pelo país em dezembro, mas problemas logísticos levaram o governo e as Farc a adiar sua mobilização até janeiro.

No acampamento onde estão agrupados em Conejo, o ambiente era festivo e de esperança no primeiro dia de 2017. "Pensamos que com o apoio dos colombianos podemos realizar nosso sonho de paz pelo qual estamos trabalhando", acrescentou "Mendoza".

O guerrilheiro confessou que espera se reencontrar muito em breve com seus pais, que não vê há 22 anos, quando, por "pressões do exército", teve que ingressar nas Farc para "salvar sua vida".

"Esta é a primeira vez que passamos o Ano Novo não só como guerrilheiros. Pelas condições de paz, também pudemos comemorar o Natal com nosso povo", comemorou um soldado que usa o codinome de "Elio Durán".

O guerrilheiro lembrou que antes da assinatura definitiva da paz com o governo, quando os enfrentamentos com o exército eram frequentes, também comemoravam o réveillon, mas não com a mesma tranquilidade deste ano.

"Sempre, como colombianos que somos, seguimos as tradições: fazemos a festa, fazemos os tamales, bolos, cremes, fazemos o ensopado de meia-noite e nos desejamos feliz ano novo", acrescentou Durán.

O guerrilheiro de 38 anos, há 25 nas Farc, sonha em conhecer muitos lugares, "ir ao cinema, ao teatro, à praia" assim que deixar as armas e voltar à vida em sociedade, o que deve ocorrer no final de maio, quando deve terminar o processo de desmobilização das Farc.

Durán ressaltou ainda que, após tantos anos na ilegalidade, quer iniciar uma nova vida com "a consciência de que agora somos um partido político e que vamos continuar com nossa luta política", em referência à transformação pela qual passarão as Farc.

"A satisfação é continuar construindo o que lutamos durante 52 anos, ou seja, fazer uma mudança social que permita uma melhor forma de viver", concluiu.

Durante o último dia do ano, os guerrilheiros enviaram saudações através da rádio clandestina bolivariana "Voz de la resistencia", e destacaram 2016 como um ano de "conquistas pela paz com justiça social para a Colômbia".

Também receberam a visita de observadores do Mecanismo de Monitoração e Verificação (MM&V) do cessar-fogo bilateral e definitivo, instância integrada por representantes do governo da Colômbia, da ONU e das Farc.

No entanto, apesar da tranquilidade e esperança que a paz representa para as Farc, "Mendoza" reconheceu que "em todos os guerrilheiros há um pouco de dúvida" pelos ataques de grupos paramilitares contra líderes sociais e requerentes de terras em diferentes partes do país, mas a "intenção de avançar na construção verdadeira da reconciliação é mais forte do que qualquer pressão". EFE

ric/cs/rsd

(foto) (vídeo)

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