Plano de Trump para se isolar dos negócios deixa muitas dúvidas

Agustín de Gracia.

Nova York, 12 jan (EFE).- O plano anunciado pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, para se distanciar de seus negócios privados gera dúvidas sobre a possibilidade de ser muito difícil, ou impossível, evitar conflitos de interesses.

Trump chegará à Casa Branca, no dia 20 de janeiro, "com mais conflitos de interesses que qualquer outro presidente na história", afirmou nesta quinta-feira Richard W. Painter, professor de direito da Universidade de Minnesota.

Em entrevista coletiva que concedida na quarta-feira, a advogada do magnata republicano Sheri Dillon fez um longo discurso sobre as medidas legais adotadas por Trump a fim de isolar seus negócios privados da gestão presidencial.

Poucas pessoas chegaram à Casa Branca com tanta riqueza como Trump, que nas últimas décadas formou um império imobiliário e outros ativos calculados em US$ 1,5 bilhão, com rendas anuais de US$ 160 milhões.

Mas existem poucas certezas sobre essas quantias, já que Trump se negou a divulgar o imposto de renda dos últimos anos, o que poderia indicar o quão rico ele realmente é, como são divididas suas propriedades e quanto ganha anualmente.

A fala de Dillon na quarta-feira foi seguida horas depois pela divuldação de documento de seis páginas da empresa Morgan Lewis, que assessora Trump, no qual são detalhadas as ações que foram ou ainda serão adotadas.

Os ativos de The Trump Organization, que agrupa quase cem empresas, se integrarão em um fideicomisso que, durante o mandato de Trump, será manuseado por dois de seus filhos, Eric e Donald Jr., e pelo diretor financeiro do grupo, Allen Weisselberg.

Da equipe da gerência dependerá um assessor ético, cuja assinatura será requerida para todas as ações de negócios "que podem representar preocupações éticas ou de conflitos de interesses", segundo o documento.

Esse fideicomisso não poderá ter acordos no exterior e os negócios nos Estados Unidos serão submetidos a um "rigoroso processo" de revista, sem que Trump, já como presidente, possa ter voz nem voto em suas decisões.

Também estabelece limites na informação que Trump receberá sobre os acordos feitos por esse fideicomisso. Ou seja, supostamente, o presidente Trump não poderá falar de negócios com os filhos e também não os dará informação oficial que não seja pública.

A primeira reação contundente sobre estes compromissos foi do diretor do Escritório de Ética Governamental, Walter M. Shaub, que deixou claro que o prometido por Trump "não cumpre com os padrões" necessários.

"Não podemos nos arriscar a criar a percepção que os líderes governamentais podem usar sua posição oficial para se beneficiar. Infelizmente, o plano atual não alcança o objetivo de evitar um conflito de interesses", argumentou Shaub em uma resposta de quatro páginas ao plano apresentado na véspera por Trump.

Tanto ele como outros especialistas insistiram que Trump só tinha duas soluções para se isolar de seus negócios enquanto ocupar a presidência: ou vendia suas propriedades ou as colocava em um fideicomisso "cego" administrado por terceiros, mas o magnata não fez nem uma coisa nem outra.

"Seus filhos vão continuar a operar o negócio, e, certamente, ele sabe o que possui", afirmou Shaub, defendendo argumentos que foram criticados duramente por fontes da equipe de transição presidencial.

"Qualquer coisa diferente do que foi anunciado é ridícula", afirmou Sean Spicer, porta-voz de Trump, ao também lembrar que, por lei, Trump não é obrigado a se desligar de seus negócios privados, embora os membros de seu gabinete sejam.

"As medidas que tomou e as que está tomando são extraordinárias. Estão acima (do que deveria) e não pode haver um conflito de interesses", acrescentou Spicer ao se referir aos comentários feitos horas antes por Shaub.

O especialistas insistiram que a figura de um fideicomisso "cego" pode ser aplicado para ativos como ações, bônus ou outros instrumentos financeiros, mas no caso de Trump são negócios imobiliários, que são administrados continuamente.

A isso se soma o fato de que os administradores do fideicomisso criado não são terceiros, pessoas desligadas a ele, mas seus próprios filhos, de total confiança, que vieram atuando como assessores do presidente eleito em toda a campanha eleitoral.

Painter, professor da Universidade de Minnesota, questionou nas páginas do "The New York Times" o que teria acontecido se em 1941 o então presidente, Franklin D. Roosevelt, tivesse propriedades imobiliárias em Berlim ou Tóquio.

Trump "simplesmente passou seus negócios a um fideicomisso escolhido por ele e seus dois filhos. Isto é uma separação para nada, e do ponto de vista de conflitos de interesses, não vai funcionar", insistiu Painter.

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