Cubanos se mostram divididos com fim da política "pés secos, pés molhados"

Yeny García.

Havana, 13 jan (EFE).- Os cubanos dentro e fora da ilha estão divididos entre a alegria, o desconsolo e a incerteza perante a eliminação ontem, quinta-feira, da política migratória "pés secos, pés molhados", que dava tratamento preferencial aos cidadãos do país caribenho que conseguissem chegar ao território dos Estados Unidos.

A notícia caiu como "uma bomba", disse à Agência Efe Sonia, que viu na tarde de ontem como a televisão estatal cubana interrompia sua programação habitual para informar sobre o novo acordo migratório que "todos sabiam que ocorreria, mas ninguém pensou que seria uma das últimas ações de (Barack) Obama no cargo".

"Sabia que (o presidente eleito Donald) Trump poderia fazer algo assim por sua posição contrária aos imigrantes. Eu mesma via num futuro a possibilidade de emigrar e me acolher à Lei de Ajuste (Cubano). Agora essa opção se torna mais difícil, porque entrar de maneira legal nos EUA está complicado", confessou Sonia.

Karina, que espera há mais de um ano para se reunir com seu marido em Miami, está "desconsolada e temerosa", porque, segundo comentou à Efe, "fecharam bruscamente as portas" pelas quais ela pensava em entrar no país vizinho.

Em um anúncio que surpreendeu muitas pessoas, os dois países chegaram a um acordo sobre um tema conflituoso por décadas na relação bilateral, com a peculiaridade de a decisão ter acontecido logo uma semana antes da chegada de Donald Trump à Casa Branca.

O novo pacto responde a uma velha exigência da ilha e elimina com efeito imediato a política migratória "pés secos, pés molhados", que permitia que os cubanos que chegassem ao território americano pudessem ficar legalmente no país, enquanto os interceptados no mar eram devolvidos à ilha.

Além disso, suprime o programa Parole, que aceitava profissionais da saúde cubanos, algo que o governo da ilha considerava um "roubo de cérebros".

Para Yudith, uma dos milhares de cubanos que usaram a rota centro-americana para chegar aos Estados Unidos e que há apenas alguns meses se assentou em Houston, no Texas, com seu marido e seu bebê de um ano, estes são tempos de "incerteza".

"Acabamos de chegar. Amanhã podem dizer que para a residência tenho que provar que fui perseguida em Cuba. Ou podem tirar toda a ajuda. Obama era o melhor e olha o que ele fez. O que poderemos esperar de Trump?", questionou a jornalista que viajou em "busca de uma nova vida" e "melhores condições econômicas".

Seu primo, outro jovem que decidiu "se aventurar" e, neste momento, se encontra no México, está "desesperado porque, quando soube da notícia, se deu conta de que não iria chegar", contou Yudith.

"Ele saiu de Havana em 15 de dezembro com destino a Trinidad e Tobago. Há dois dias, chegou ao México e agora não sabe para onde ir porque perdeu muito dinheiro pelo caminho", lamentou a jornalista.

Em Havana, no entanto, há muitos que responsabilizam esta política pelas milhares de mortes na travessia do estreito da Flórida e durante o duro trajeto pela América Central, no caso dos que escolhem emigrar por terra.

Enquanto uns se desculparam e não quiseram opinar por não conhecerem a notícia, outros como Desi Jasán ficaram felizes.

"Eu penso que é bom que tenham acabado com esta lei. Isso é um risco que o povo cubano corria e não acredito que era bom", afirmou o jovem.

José, um funcionário público de 53 anos, pensa que o fim da lei "é muito bom, porque talvez haja outra lei que melhore a relação e que sirva para que todo mundo viaje de forma ordenada".

O ativista opositor e líder do grupo social-democrata "Arco Progressista", Manuel Cuesta Morúa, considera, por sua vez, que este é um "primeiro passo para a eliminação da Lei de Ajuste Cubano".

"É uma medida controvertida, tomada em um momento no qual Obama deixa a presidência, mas certamente é uma política que é de interesse de ambos os Estados. Acredito que é preciso garantir que os cubanos cheguem aos EUA da maneira em que devem chegar: legalmente", acrescentou Morúa.

Na opinião do ativista, a política de "pés secos, pés molhados", ao invés de afetar o regime cubano, na verdade "aliviava" e "estimulava a entrada de remessas ao país", mesmo que isso significasse um "fracasso do modelo", pois colocava em evidência o abandono de uma revolução que supostamente "favoreceu tanto à populção de Cuba".

"No entanto, devolve a discussão do que acontece em Cuba para nós, os cubanos, e provavelmente despertará uma reflexão maior sobre onde e o que devemos fazer para melhorar nossas condições de vida na ilha que nos viu nascer", concluiu Morúa.

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