Giro político em relação a Cuba gera surpresa, rejeição e incerteza em Miami

Ana Mengotti.

Miami, 13 jan (EFE).- O repentino fim da política que desde 1995 amparava os cubanos que conseguiam pôr o pé nos Estados Unidos gerou nesta sexta-feira em Miami outra onda de opiniões a favor e contra, temores de um êxodo em massa de Cuba e incerteza sobre o que acontecerá com os que chegarem ao território americano a partir de agora.

Não por acaso, vários veículos de imprensa locais publicaram nesta sexta-feira artigos com títulos como "Tudo o que você precisa saber sobre as mudanças na política migratória dos Estados Unidos em relação a Cuba".

Há mais de 50 anos, alguns cubanos nos EUA passam dias esperando em segredo a chegada de parentes que decidem deixar a ilha, e estes dias não são uma exceção.

A Guarda Costeira americana, que desde 1º de outubro interceptou mais de 1,8 mil cubanos que tentavam chegar aos EUA por mar, se dirigiu nesta sexta-feira aos cubano-americanos para pedir que "desincentivem as pessoas de Cuba" de fazer uma viagem "perigosa e ilegal".

Em comunicado, o órgão enfatizou que "mantém uma sólida presença no estreito da Flórida, no Caribe e no Golfo do México" e que seus navios, lanchas e aviões, dotados de equipe "altamente preparada", seguem dispostos a "deter qualquer tentativa de imigração ilegal aos Estados Unidos".

O comunicado adverte aos que tentarem chegar por mar que serão "detidos e repatriados" de acordo com o que dizem a lei americana e os acordos internacionais.

Ainda não há informações de cubanos chegados por mar depois do anúncio do fim da política conhecida como "pés secos, pés molhados", mas, segundo canais de televisão, o engenheiro Yuniesky Marcos Roque e seu filho Kevin, de 7 anos, foram os últimos cubanos que entraram por terra, por uma passagem no Texas, amparados por essa política.

O presidente em fim de mandato dos EUA, Barack Obama, ao anunciar nesta quinta-feira a mudança, que também abrange um programa específico para médicos cubanos, o enquadrou no processo de normalização dos laços com Cuba iniciado em 2014.

Esse processo, que levou ao restabelecimento das relações diplomáticas bilaterais em 2015, longe de deter o fluxo contínuo de cubanos aos EUA, o aumentou, segundo dados dos organismos oficiais americanos. Também não diminuiu a repressão da oposição em Cuba, segundo organizações de direitos humanos.

A Conferência de Bispos Católicos dos EUA, que se declarou "decepcionada" pelo fim da política de "pés secos, pés molhados", afirmou que "a violação dos direitos humanos básicos continua sendo uma realidade para alguns cubanos".

De acordo com o bispo de Austin, Joe Vásquez, presidente da Comissão de Migrações da conferência episcopal, a "mudança repentina" de política tornará "mais difícil" que encontrem proteção grupos vulneráveis, como solicitantes de asilo, crianças e vítimas de tráfico de pessoas.

A numerosa comunidade cubana na Flórida está dividida em relação ao fim da política. Carlos Bant, que foi capitão de navio durante pelo menos uma década em Cuba e chegou a Miami por mar em 15 de julho de 1999, expressou que, "como naturalizado americano", está "100% de acordo com a nova medida aprovada ontem".

"Mas, como cubano que ainda me sinto, lamento muito a eliminação da última via de escape das pessoas em Cuba, com a qual podiam chegar aqui por mar com um futuro melhor e uma independência política", acrescentou.

O jornal "El Nuevo Herald" considerou em editorial nesta sexta-feira que a mudança é uma "concessão" do presidente Obama ao líder cubano, Raúl Castro, que tinha exigido o fim da regra dos "pés secos, pés molhados", assim chamada porque só podiam se beneficiar os que chegassem a tocar o território americano.

"E possível ser a favor ou contra a medida, mas é assombroso que o presidente Obama, que só tem mais uma semana na Casa Branca, tenha posto fim a uma política de importância vital em Miami", ressalta o editorial.

O presidente eleito Donald Trump ainda não se pronunciou sobre a medida tomada por Obama, mas em fevereiro do ano passado, quando era pré-candidato, disse a um jornal de Tampa que era "injusto" o tratamento preferencial aos cubanos.

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