A dura vida dos refugiados no inverno de Belgrado

Snezana Stanojevic.

Belgrado, 14 jan (EFE).- Sem calefação, eletricidade, água quente nem agasalhos adequados e vivendo em um velho armazém. Assim, centenas de imigrantes - a maioria de Paquistão e Afeganistão - enfrentam o rigoroso inverno de Belgrado, com temperaturas de até 15 graus abaixo zero.

No galpão, onde se aquecem e fazem comida com pequenas fogueiras, há lixo e lama por toda parte, e a fumaça causa incômodo nos olhos e dificulta a respiração.

Para lutar contra o frio, algumas ONGs instalaram geradores que fornecem um pouco de ar quente para dentro do armazém.

Sakib é um paquistanês de 27 anos que tentou em cinco ocasiões, sem sucesso, atravessar a fronteira da Sérvia com a Hungria para entrar, assim, na União Europeia (UE). Está há vários meses em Belgrado e não quer ir a um centro para solicitantes de asilo.

"Temo que me levem ao sul e me deportem outra vez à Macedônia", declarou à Agência Efe o refugiado, que pretende ir à Itália ou Alemanha, mas não gostaria de retornar a seu país por medo dos conflitos.

Seus amigos paquistaneses e afegãos, de idades entre 15 e 35 anos, tentam preparar um guisado "de um pouco de tudo" - as organizações humanitárias oferecem a eles apenas uma refeição quente por dia.

Ao lado, outro grupo de afegãos tenta se aquecer com cachecóis e cobertores que receberam de uma ONG.

Um é carpinteiro, outro diz ser pintor, um terceiro se define como um eletricista que conhece "muito bem computadores e programação", e o último assegura que é técnico de engenharia civil.

Todos consideram que em qualquer país poderiam ser bons trabalhadores e desejam ir a Bélgica, França, Espanha e Alemanha. Um deles, Mahud, está em Belgrado há cinco meses.

"Tentei atravessar dez vezes a fronteira com a Hungria", disse ele, que não descarta uma nova tentativa.

Para eles, a Sérvia não é um país para se estabelecer. Mas para a Europa, muitos emigrantes, como os paquistaneses, são considerados econômicos por não procederem de países em guerra, e contam com poucas chances de obter asilo na UE.

O membro da organização humanitária Médicos sem Fronteiras, Andrea Contenta, explicou à Efe que essas pessoas estão presas "em condições desumanas e indignas" na rota dos Bálcãs porque a UE evita abordar o problema.

Contenta afirmou que "dizer que a rota balcânica está fechada não reflete a realidade", e sustenta que na Grécia há mais de 60 mil imigrantes e refugiados retidos, na Bulgária 15 mil e na Sérvia mais de oito mil.

"A Sérvia é um exemplo do fracasso da política migratória, porque no centro de Belgrado temos duas mil pessoas que não têm acesso a ajuda, banheiros, água, sabão", criticou.

"Nos últimos dias a temperatura caiu para 15 graus abaixo zero, temos até 20 centímetros de neve, e todos querem filmá-los. Mas eles não estão aqui só esta semana, estão há meses", advertiu Contenta.

As autoridades sérvias pedem desde a semana passada que essas pessoas se alojem em centros de asilo para se proteger do frio e ofereceram transporte, mas apenas 400 delas aceitaram.

Ivan Miskovic, da Delegacia de Refugiados e Migrações da Sérvia, disse à Efe que esses imigrantes do centro de Belgrado são muito obstinados e evitam a todo custo irem aos centros de amparo.

"Desconfiam muito do sistema, temem deportações e traficantes de pessoas. Acreditam que se entrarem no sistema e se registrarem não poderão seguir seu caminho até a Europa", contou Miscovik.

Andrea Contenta indicou, no entanto, que não é simples nem rápido o processo de registro prévio ao alojamento, e que muitos dos imigrantes estão em um "limbo legal e administrativo" por falta de capacidade da Sérvia.

Além disso, ao contrário do que dizem as autoridades, Contenta declarou que os centros de amparo "estão cheios, alguns com lotação de 110% e 150% de sua capacidade".

A Médicos sem Fronteiras ofereceu à Sérvia e a organizações humanitárias internacionais que trabalham na região a abertura de um refúgio provisório como "solução de emergência", mas ainda não obteve uma resposta oficial.

Contenta pediu a países da UE e não comunitários que trabalhem juntos para chegar a um plano de solução o problema.

"Mas, por negligência, a omissão do fato de existirem dezenas de milhares de pessoas retidas ao longo da rota dos Bálcãs não é uma solução", concluiu.

A rota dos Bálcãs foi oficialmente fechada em março de 2016, mas imigrantes e refugiados ainda a usam para chegar à União Europeia, muitas vezes de forma ilegal.

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