América Latina assiste à chegada de Trump ao poder com medo e resignação

Alejandro Varela.

Bogotá, 19 jan (EFE).- Os países da América Latina esperam com resignação e medo a chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, um período de previsões nada boas para a região, já que o republicano dá sinais de que implantará uma política beligerante e protecionista em relação aos vizinhos.

O medo cresce quando se comprova que as piores declarações de Trump não eram simples discursos eleitorais durante a campanha. O presidente eleito tem reafirmado as promessas às vésperas da posse.

Trump reiterou que vai construir um muro na fronteira com o México e voltou a dizer que os vizinhos pagarão pela obra, que tem como objetivo conter a entrada de imigrantes ilegais nos EUA.

O presidente eleito também colocou em dúvida os benefícios do Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta), firmado entre EUA, México e Canadá. Além disso, fez recomendações muito diretas e até ameaças aos investimentos de empresas americanas no México.

As reuniões e ligações entre Trump e o presidente do México, Enrique Peña Nieto, parecem ter surtido pouco efeito. Nieto se vê obrigado a falar sobre as declarações do republicano em praticamente todas as vezes que conversa com jornalistas.

Um dia depois da vitória eleitoral de Trump, a maioria dos jornais mexicanos colocou expressões quase apocalípticas em suas manchetes. As previsões, porém, estão se tornando realidade.

Trump não se referiu diretamente aos demais países da América Latina, mas seus discursos sobre o México repercutem e geram temor na região, já que os EUA são os maiores investidores estrangeiros nesses países. As características e os problemas na relação com Washington também são muito comuns entre eles.

A intolerância como única resposta à imigração também afeta os países da América Central, especialmente Guatemala, El Salvador e Honduras, que temem a devolução de milhões de seus cidadãos e a suspensão do dinheiro enviado por pessoas que estão nos EUA caso as piores ameaças de Trump sejam cumpridas.

Os EUA tem tratados de livre-comércio com vários países latino-americana. Quem está mais preparado para a nova conjuntura é o Chile, cujo governo se limitou a expressar resignação e indiferença se Trump decidir ou criticar o pacto. A balança comercial entre os dois países é altamente favorável aos americanos.

Na Argentina, o presidente Mauricio Macri apoiou a candidatura de Hillary Clinton, mas, após a derrota da democrata, conversou por telefone com Trump. A chanceler do país, Susana Malcorra, disse que o diálogo serviu para que ambos restaurassem o "velho vínculo" entre eles por seus negócios pessoais.

Malcorra também declarou que o triunfo do republicano representava um "giro que tem um nível de incerteza muito grande".

No âmbito puramente político, a maior inquietação é praticamente monopolizada por Cuba e as novas relações diplomáticas com EUA, após a reaproximação iniciada no fim de 2014. Era o começo de um processo que deveria terminar com o fim do embargo econômico e que agora ficou imerso nas incertezas sobre a presidência de Trump.

A Colômbia, talvez o principal aliado político dos EUA na região, corre o risco de ver prejudicado o processo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbica (Farc) se o governo do republicano não topar colaborar com o país como estiveram dispostos todos os seus sucessores.

Já os governos de Venezuela e Nicarágua, em princípio, só podem esperar um endurecimento em relação aos dois países na nova administração.

Na Nicarágua existe o temor que Trump, com maioria na Câmara dos Representantes e no Senado dos EUA, tente aprovar o chamado "Nica Act", uma lei para impedir os empréstimos ao país se não forem realizadas eleições livres, justas e transparentes.

Por fim, a luta contra o narcotráfico é um dos assuntos mais espinhosos e menos arejados na relação dos EUA e a América Latina, como consumidor e fornecedor de drogas, respectivamente, e sobre o qual as intenções de Trump ainda não estão claras.

Pelo mostrado até agora pelo republicano, seria uma surpresa que se o novo governo optar por um caminho diferente do que adotar medidas de força e de sanções sobre os países produtores das drogas, estratégia que até o momento fracassou e que o endurecimento pode piorar ainda mais o cenário na região.

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