Asas de pássaro mitológico deterão inundações na capital da Indonésia

Noel Caballero.

Bangcoc, 19 jan (EFE).- As asas da Garuda, pássaro mitológico considerado um semideus no hinduísmo e símbolo nacional da Indonésia, servirão de muro de contenção para deter as frequentes inundações que afetam Jacarta.

O governo indonésio, junto a um conglomerado de empresas holandesas, projeta a construção de uma enorme barragem à frente da costa da capital junto a 17 ilhas artificiais cuja forma se assemelha à da ave mitológica.

A obra, estimada em US$ 40 bilhões, permitirá assentar cerca de 300 mil pessoas ao longo do Grande Muro de Jacarta, ou o Grande Garuda, como o projeto é chamado extraoficialmente.

O norte da capital indonésia, onde vivem quatro milhões de habitantes, sofreu na última década várias inundações por causa do progressivo afundamento da terra, cujas áreas mais afetadas diminuíram até 25 centímetros anuais.

Segundo os especialistas, 40% de Jacarta está abaixo do nível do mar.

As razões do afundamento da capital, conhecida como Batávia durante a ocupação holandesa, estão na constante extração de aquíferos subterrâneos e a construção frenética de torres de apartamentos, escritórios e shoppings.

No entanto, o projeto foi questionado por alguns especialistas.

O holandês Jan Jaap Brinkman, perito em hidrologia que vive na Indonésia, disse ao jornal "Jacarta Post" que tem suas dúvidas sobre o faraônico projeto e opinou que a solução mais "simples e barata" é deter o consumo de água subterrânea para que o afundamento pare nos próximos cinco ou dez anos.

A subsidência da capital indonésia agravou as frequentes inundações em várias zonas de Jacarta, assentada na homônima baía no norte da ilha de Java.

A antiga Batávia sofreu em 2007 catastróficas inundações que deixaram 76 mortos e mais de meio milhão de deslocados, com danos avaliados em US$ 550 milhões.

O plano, que retoma uma antiga ideia do ex-ditador Suharto, pretende levantar, em três fases, uma enorme muralha-bairro 24 metros acima do nível do mar e ao longo de 40 quilômetros em frente à cidade, que também servirá para revitalizar a costa de Jacarta com campos de golfe e hotéis.

Grupos para a proteção do meio ambiente, no entanto, denunciam que as duas lagoas artificiais que surgirão por causa do projeto bloquearão a circulação de água e agravarão problemas sanitários.

Um estudo do Ministério de Assuntos Marítimos indonésio de 2015 afirmou que a construção do muro terá um impacto massivo no ecossistema ao desviar correntes marinhas que potencialmente poderiam afetar outras áreas da baía.

O documento também alertava dos problemas sociais derivados da nova infraestrutura ao estimar que mais de 24 mil pessoas que vivem em comunidades de pescadores litorâneas terão que abandonar suas casas.

A dragagem para a criação das primeiras ilhas artificiais começou em 2013, mas a obra foi paralisada de maneira provisória no ano passado enquanto era investigado um escândalo de corrupção que respingou no projeto.

No entanto, a moratória expirou no último mês de setembro e o governo indonésio anunciou seus planos de prosseguir com a construção do Grande Garuda, que deve terminar em 2025.

O ministro de Coordenação Marítima indonésio, Luhut Pandjaitan, pediu então ao governo que avançasse na construção do Grande Muro de Jacarta para evitar o iminente impacto da penetração de água salgada nos aquíferos, o que poderia condenar ao abandono parte da megalópole indonésia.

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