Com degelo em xeque, Cuba aguarda posse de Trump em silêncio

Lorena Cantó.

Havana, 19 jan (EFE).- No dilema entre a prudência e o pragmatismo nos últimos momentos até a posse de Donald Trump, contrário à aproximação iniciada por Barack Obama, Cuba acelerou negociações para avançar no degelo das relações diplomáticas com o atual governo americano.

Incerteza é a palavra mais repetida para se referir ao que ocorrerá com a recém-retomada relação entre Cuba e seu poderoso vizinho, governado a partir do dia 20 por um homem que ameaçou dar marcha à ré caso Cuba não faça concessões em termos de abertura democrática.

Até então, e em meio a especulações, Havana optou pelo silêncio absoluto, e fora o breve parabéns feito pelo presidente Raúl Castro a Donald Trump após o resultado das eleições nos EUA, as autoridades cubanas decidiram ignorar as declarações e esperar fatos.

Esse silêncio oficial também se manteve após as palavras de Trump sobre um assunto tão sensível para Cuba: a morte do ex-presidente e líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, no dia 25 de novembro do ano passado.

"Fidel Castro está morto!" foi a primeira reação do magnata republicano à notícia, seguida por um comunicado no qual chamou o ex-líder de "brutal ditador" e prometeu fazer "todo o possível para garantir que o povo cubano possa iniciar finalmente seu caminho para rumo à prosperidade e à liberdade".

Sem entrar em provocações, o único assunto comentado em Havana pela chefe para os EUA da Chancelaria da ilha, Josefina Vidal, foi que Cuba está aberta a continuar o trabalho iniciado com o governo de Barack Obama, mas sempre sobre a premissa de que a soberania e assuntos internos cubanos não estão sobre a mesa.

Ao mesmo tempo, Havana e Washington protagonizaram nos últimos dois meses um rápido avanço em todos os acordos possíveis dentro do processo de aproximação iniciado em dezembro do 2014, após mais de meio século de inimizade.

Se 2015 e 2016 foram dois anos de primeiros reatamentos, como a reabertura de embaixadas (julho de 1015), a visita de Obama a Cuba (março de 2016) e o restabelecimento dos voos comerciais (agosto de 2016), as duas primeiras semanas de 2017 também tiveram notícias como a primeira operação comercial para vender um produto cubano no mercado americano, o carvão vegetal.

A atividade bilateral foi incessante na reta final de Obama e continuou até o último minuto, como prova a viagem do assessor adjunto de segurança nacional do presidente em fim de mandato, Ben Rhodes, nesta semana a Havana para "encontros oficiais, compromissos culturais" e assistir à assinatura de um novo memorando de entendimento.

A viagem de Rhodes, um dos principais envolvidos no degelo pelo lado americano, ocorre pouco após outra conquista bilateral de último minuto: o cancelamento da política de "pés secos, pés molhados", uma histórica reivindicação do governo cubano ao considerar que o sistema incentivava a arriscada imigração ilegal.

A decisão tem uma leitura paradoxal. Por um lado, reafirma a mensagem de que os dois países já possuem uma relação normal e que os EUA não precisam "ajudar" os cubanos a escaparem de um regime opressivo. Outros consideram uma surpreendente traição de Obama aos cubanos que sonhavam ter uma vida melhor fora de Cuba.

O que esperar de Trump? Se a ameaça de reverter o degelo for materializada ponto a ponto, o magnata pode ordenar o fechamento da embaixada americana em Havana e cercear as ideias de Obama para suavizar o embargo ainda vigente e impulsionar a aproximação.

Essas medidas de Obama abriram portas aos voos comerciais entre EUA e Cuba, multiplicaram os casos de americanos que podem visitar a ilha e autorizaram novas categorias de investimentos para empresas norte-americanas, com foco nas telecomunicações.

Entre analistas consultados pela Agência Efe nas últimas semanas, a tese mais comentada é que Trump congelará o processo e deixará as coisas como estão, sem novos avanços, mas sem retroceder no que já foi conseguido.

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