Com Trump, EUA e China se encaminham para período de sobressaltos

Antonio Broto.

Pequim, 19 jan (EFE).- As palavras e atitudes de Donald Trump em relação à China não foram nada agradáveis, nem durante sua campanha, nem como presidente eleito, razão pela qual no gigante asiático se teme a chegada de um período de novas tensões comerciais e políticas entre as duas maiores economias mundiais.

A promessa de "tornar os Estados Unidos grandes de novo", lema eleitoral do magnata, inclui combater a presença dos produtos e das empresas chinesas em seu país com tarifas e sanções, o que faz prever uma era de confronto entre as duas superpotências, pelo menos nos primeiros meses do governo Trump.

"No curto prazo, as relações comerciais serão tensas, porque Trump quer aumentar os impostos sobre as importações de produtos chineses, e é preciso tempo para que os dois governos negociem", declarou à Agência Efe Xiong Zhiyong, professor da Universidade de Relações Exteriores da China, em Pequim.

Em sua campanha, Trump ameaçou criar tarifas de até 45% sobre os produtos chineses, algo que, se for materializado, poderia diminuir em 1,4 ponto percentual o crescimento econômico de uma potência asiática que já está em desaceleração, segundo cálculos de analistas do banco de investimentos Morgan Stanley.

O fato de Trump ter nomeado notórios críticos da China em postos estratégicos de sua política comercial também não deixa espaço para muitas esperanças.

O Escritório de Comércio Exterior será dirigido por Robert Lighthizer, que acusou Pequim de práticas comerciais fraudulentas, e à frente do Conselho de Comércio Nacional estará Peter Navarro, autor de um livro e um documentário chamados "Morte pela China", nos quais culpa esse país pelos males econômicos dos EUA.

Fora do âmbito político, o panorama também não é muito positivo: as críticas de Donald Trump à passividade da China com a Coreia do Norte, sua polêmica conversa telefônica com a presidente de Taiwan, Tsai Ting-wen; ou suas ameaças de usar essa ilha como arma de negociação comercial já atiçaram o regime comunista.

"Vai aumentar a rivalidade política, porque os dois governos têm grandes desacordos", sentenciou Zhu Feng, professor de diplomacia na Universidade de Nanquim, que confia que na questão taiwanesa o sangue não chegará ao rio, mas acredita que "será preciso negociar" em outros litígios regionais.

Opinião similar foi dada por Jean-Pierre Cabestan, especialista em China da Universidade Batista de Hong Kong. Ele disse à Agência Efe que "a eleição de Trump forçará o país asiático a ser mais cauteloso globalmente falando, tanto no Mar do Sul da China como no estreito de Formosa ou em qualquer outro lugar".

Apesar de tudo isso e da imagem provocadora e combativa de Trump, nem tudo está perdido: inclusive nos últimos meses de frequentes ataques do magnata à China ou de gestos de desafio a Pequim, houve alguns raios de esperança.

Diferentemente dos mencionados críticos da China, no novo governo dos EUA o próximo secretário de Comércio, Wilbur Ross, é um grande admirador da arte e da cultura do país oriental e chegou a elogiar publicamente até seus planos quinquenais, instaurados por Mao Tsé-tung.

Pouco após provocar o governo chinês com sua conversa telefônica com a presidente taiwanesa, Trump soube amansar a fera nomeando um amigo pessoal do presidente Xi Jinping como novo embaixador dos EUA na China.

Trata-se do até agora governador de Iowa, Terry Branstad, cuja amizade com Xi remonta aos anos 80, quando o atual presidente da China era um jovem engenheiro que viajou para esse estado americano para estudar a agricultura local.

Também pode jogar a favor das relações sino-americanas o fato de Trump vir de um setor como o empresarial, o que facilitaria a adaptação à pragmática maneira de fazer política externa do regime chinês.

Parece ajudar neste sentido, a recente reunião de Trump com um dos empresários mais famosos da China, Jack Ma, fundador do gigante do comércio eletrônico Alibaba, rendeu ao magnata americano a promessa de criação de 1 milhão de postos de trabalho nos EUA.

"É possível que nos assuntos exteriores haja complicações, pela falta de experiência de Trump, mas a China quer cooperação econômica e, se os EUA mostrarem boa disposição, isso pode reduzir a rivalidade", argumentou Xiong Zhiyong.

À espera de ver que postura do contraditório e imprevisível Trump se impõe, a intriga para ver como se desenvolverão as relações entre Pequim e Washington está em seu auge.

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