Desnorteado e sem plano B, México aguarda Trump como se fosse o Apocalipse

Raúl Cortés.

Cidade do México, 19 jan (EFE).- Sem cartas na manga e desnorteado, o México aguarda a posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos e suas ameaças de erguer um muro na fronteira, deportar milhões de imigrantes mexicanos, taxar as remessas com impostos e prejudicar o país no terreno comercial.

Como se sentissem a chegada do Apocalipse, os mexicanos assimilaram como puderam as declarações dadas durante a campanha eleitoral pelo próximo chefe do governo americano, encarando-as como afrontas à soberania nacional.

Além disso, houve quem criticasse o governo de Enrique Peña Nieto por sua postura em relação a Trump desde que convidou o bilionário à residência presidencial de Los Pinos em setembro do ano passado durante a campanha para a presidência dos EUA.

Ao usar a expressão "Tremendo" como título para a notícia sobre o resultado das eleições nos EUA, o jornal mexicano "Reforma" resumiu perfeitamente em novembro do ano passado a angústia da opinião pública do México.

Mais longe chegaram personalidades como o historiador Enrique Krauze e o ex-presidente Vicente Fox (2000-2002) ao comparar o magnata e ex-dono do concurso Miss Universo com Adolf Hitler.

Mas por que tanto temor? Em um país acostumado a encarar e superar crise econômicas de forma cíclica e a olhar com lupa qualquer passo dado pelo vizinho do norte, ninguém vê nada positivo para o México em um governo Trump.

São frequentes as brincadeiras sobre os métodos que os mexicanos usarão para passar por uma fronteira onde já não faltam muros - eles estão presentes em um terço dos mais de 3.000 quilômetros da linha que divide os dois países, e as primeiras ameaças de ampliá-lo datam de 20 anos atrás.

Mas o humor parece desta vez mais um bálsamo para as feridas do que uma maneira de minimizar a importância do assunto.

Peña Nieto garantiu que seu país não pagará pela construção do muro, mas Trump já afirmou que, se os mexicanos não arcarem com seus custos diretamente, o farão por meio de impostos sobre as remessas que seus compatriotas que vivem nos EUA enviam para casa.

Trata-se de um duro golpe para o México, quarto país em todo o mundo que mais recebe dinheiro por este tipo de transação e que nela tem sua segunda maior fonte de divisas depois das exportações de veículos. Nos primeiros 11 meses de 2016, as remessas cresceram 9,04% em relação ao ano anterior (US$ 24,626 bilhões) e tiveram a maior alta anual em uma década.

De qualquer forma, o mais provável é que Trump tente taxar as remessas como forma de pressão e para aumentar as receitas fiscais americanas.

Este eventual baque só é comparável com o que se espera no inercâmbio comercial. Trump exige uma atualização do Tratado de Livre-Comércio da América do Norte (NAFTA) porque considera que prejudica a indústria, o comércio e o emprego em seu país, beneficiando o México, um dos três países membros - o outro é o Canadá.

Antes de saber como o acordo será renegociado, opção à qual Peña Nieto se mostrou aberto, o presidente eleito está coagindo as empresas americanas com investimentos no México para que voltem a produzir nso EUA. Caso contrário, terão que pagar um imposto de 35%, segundo Trump, cuja pressão já fez efeito na fabricante de ar condicionado Carrier e na montadora Ford, que suspenderam planos de investimento em terras mexicanas.

Levando em conta que 80% das exportações mexicanas vão para os EUA, o impacto na economia mexicana não deve demorar a chegar. A moeda nacional desabou 25% em 2016, chegando a 22 pesos por dólar, e o Fundo Monetário Internacional (FMI) diminuiu a previsão de crescimento da economia mexicana em 2017 de 2,3% para 1,7% devido à "incerteza" gerada pelo 'furacão' Trump.

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