Política externa de Trump se mostra imprevisível

Lucía Leal.

Washington, 19 jan (EFE).- Convencido de que ser imprevisível é sua melhor arma em escala global, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, esboçou uma política externa afastada dos grandes esquemas estratégicos de seus antecessores e ajustada, por outro lado, à mentalidade transacional que o tornou rico nos negócios.

Ninguém sabe com certeza como será a política externa de Trump, um líder que se afastou dos clássicos esquemas internacionalistas e oscilou entre o isolacionismo e o militarismo, confundindo o mundo com propostas explosivas raramente explicadas em detalhes.

"O presidente eleito tem uma forma de abordar a política externa que é explicitamente antiestratégica", explicou Micah Zenko, analista do Council on Foreign Relations, em artigo publicado na última sexta-feira na revista "Foreign Policy".

Zenko define a doutrina de Trump como um "transnacionalismo tático", que consiste na busca de "vitórias discretas" ou "tuitáveis"; o tratamento das relações "de forma bilateral, ao invés de multidimensional", e a resistência ao conceito de "veículos de imprensa" que costuma fazer parte das grandes estratégias.

Durante sua campanha eleitoral, Trump prometeu ser "mais imprevisível" que seus antecessores em sua relação com o mundo, se guiar pelo princípio da "América primeiro" e conseguir vantajosos acordos de seus adversários aproveitando sua posição de força.

Sua maior prioridade é o combate ao grupo jihadista Estado Islâmico (EI), o que explica em parte sua vontade de aproximar as relações com a Rússia, que estão em seu ponto mais baixo em décadas, e combater os terroristas com a ajuda de Vladimir Putin.

Este objetivo se complicou após o relatório das agências de inteligência americanas que acusa a Rússia de interferir no processo eleitoral a fim de ajudar Trump a sair vitorioso, algo que o presidente eleito resistiu em acreditar durante um mês antes de admitir que Moscou pode ter lançado esses ciberataques.

O a repercussão do relatório no Congresso americano levou os indicados para Exteriores (Rex Tillerson), Defesa (James Mattis) e a CIA (Mike Pompeo) a adotarem um tom muito mais duro em relação à Rússia em suas audiências de confirmação no Senado, onde também suavizaram outras propostas polêmicas de Trump.

"As contradições (entre Trump e seus indicados) são muitas, em relação à tortura, à política sobre a Rússia, aos programas de modernização nuclear, ao muro na fronteira (com o México) e aos visitantes muçulmanos", disse à Agência Efe Gordon Adams, professor emérito de política externa na American University.

"Veremos se as promessas de Trump eram pura retórica e estão sujeitas a mudanças", acrescentou o analista.

Para Adams é improvável que Trump ceda à pressão do Senado para impor mais sanções à Rússia por seus ciberataques, e o novo presidente deve "agendar em breve um encontro com Putin" para estreitar as relações, mas a provável interferência russa nos EUA promete esfriar a lua-de-mel que queria ter com Moscou.

A China desponta como o maior adversário na política externa de Trump, a julgar por suas críticas à política comercial do gigante asiático, a acusação de que Pequim não fez o suficiente contra a Coreia do Norte e sua ruptura de protocolo ao conversar com a presidente de Taiwan após sua vitória nas eleições.

"Acho que o confronto com a China crescerá, e pode ser perigoso", sustentou Adams.

Sua relação com a Europa também começou tensa, após assegurar em uma entrevista ao jornal britânico "The Times" que a União Europeia (UE) é "basicamente um veículo para a Alemanha" e prever que, além do Reino Unido, "mais países deixarão" o bloco.

Com essas declarações, Trump se transforma no primeiro líder americano desde a Segunda Guerra Mundial a não apoiar a integração europeia, algo que, somado à sua opinião de que a Otan está "obsoleta", causou temor no velho continente.

Trump só nomeou três embaixadores antes de sua posse, a da ONU, o da China e o de Israel, e para este último posto optou por David Friedman, um advogado que questionou a necessidade de uma solução de dois Estados.

O presidente eleito quer se aproximar assim do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que não escondeu seu entusiasmo pela chegada à Casa Branca de seu primeiro interlocutor republicano e agradeceu a oposição de Trump à abstenção do governo de Barack Obama na condenação da ONU aos assentamentos israelenses.

No mais, a grande pergunta é se o magnata cumprirá várias de suas grandes promessas de campanha, como a de cancelar o acordo nuclear assinado com o Irã em 2015 ou a de voltar a usar a tortura com os suspeitos de terrorismo.

Suas promessas de construir um muro na fronteira com o México e de frear as medidas de Obama em relação a Cuba caso o governo cubano não se preste a negociar com ele "um acordo melhor" também semeiam incerteza em suas relações com a América Latina. Mas, de novo, ninguém sabe se são planos irrevogáveis ou pura retórica de campanha.

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