Trump, um líder imprevisível com o desafio de "tornar os EUA grandes de novo"

Pedro Alonso.

Washington, 19 jan (EFE).- Ninguém sabe que tipo de presidente será alguém tão imprevisível como Donald Trump, mas está claro que o magnata chega à Casa Branca com o desafio de cumprir uma promessa eleitoral tão contundente como difusa: "tornar os Estados Unidos grandes de novo".

Esta frase foi o lema de campanha que encorajou milhões de eleitores - muitos deles brancos de uma classe trabalhadora desencantada com os políticos tradicionais - a dar as rédeas da maior potência mundial a um líder populista como Trump.

O multimilionário, ex-apresentador de TV, dono de um império imobiliário e novato na política causou comoção com seu inesperado triunfo nas eleições de novembro contra a democrata Hillary Clinton, a quem derrotou com um discurso demagógico e xenofóbico.

Não estranha, portanto, que a chegada de Trump - conhecido por sua personalidade impulsiva - ao Salão Oval gere uma extraordinária incerteza e desconcerto, dentro e fora do país.

Como comentou à Agência Efe Thomas Mann, analista político do centro de estudos Brookings, os Estados Unidos não se encontram, pela primeira vez em muito tempo, diante de "um novo presidente normal que vai assumir o poder", pois "nada é normal" a respeito do empresário republicano.

Ao contrário do democrata Barack Obama, que deixa a Casa Branca com uma notável popularidade após oito anos de governo, Trump toma o bastão como o líder eleito mais impopular do país em décadas.

Mais da metade dos americanos (51%) desaprova a atuação do multimilionário no período de transição para sua posse como 45º presidente dos Estados Unidos, enquanto só 44% o apoia, segundo uma pesquisa do Instituto Gallup.

Estes dados são os piores já obtidos por um presidente eleito desde que o instituto começou a fazer essas pesquisas em 1992.

No agitado período de transição, o magnata confeccionou seu governo, que mistura figuras republicanas, como seu chefe de gabinete, Reince Priebus; com populistas, como seu assessor principal, Steve Bannon, acusado de racismo e símbolo da extrema-direita.

Essa etapa também se viu obscurecida pelos polêmicos relatórios de inteligência dos EUA que culpam a Rússia pelos ciberataques durante o pleito para prejudicar Hillary e favorecer Trump, que vê nessa conclusão uma tentativa de deslegitimar sua vitória eleitoral.

A chamada "diplomacia tuiteira" de Trump (suas controvertidas mensagens no Twitter sobre assuntos sensíveis de política externa) e os constantes ataques à imprensa, à qual tacha de "desonesta", também contribuíram para rarefazer a transição.

De acordo com Mann, esses "sinais" são "preocupantes" e trazem a dúvida de se o magnata "respeitará as normas democráticas ou nos conduzirá em uma direção autoritária".

Trump herda de Obama uma economia que, após superar a grave crise de 2008, voltou ao caminho do crescimento, embora muitos trabalhadores demitidos durante a recessão, a quem o empresário chama de "os esquecidos", não sintam esse alívio.

Neste sentido, o magnata encara o desafio de criar "pelo menos 25 milhões de empregos" com incentivos fiscais e receitas protecionistas.

Em política nacional, o desejo de grandeza de Trump passa também por medidas como a polêmica construção de um muro na fronteira com o México que impeça o fluxo de imigrantes ilegais e que ele quer que seja pago pelo vizinho do sul, que se nega a fazê-lo "por dignidade".

O empresário se propôs, do mesmo modo, a desmantelar conquistas do legado de Obama, como sua reforma da saúde, chamada popularmente de "Obamacare" e que beneficiou mais de 20 milhões de pessoas, apesar de não ter detalhado nenhuma alternativa.

Para essa e outras necessidades, Trump tem a sorte que o Partido Republicano controle o Congresso, mas mesmo assim deverá se esforçar para manter uma boa sintonia com seus correligionários, que fazem parte do 'establishment' a quem insultou sem trégua.

Na política externa, que Trump abordará sob a premissa de "os EUA primeiro", o novo presidente encarará, logo após pôr o pé na Casa Branca, duas guerras ainda abertas e com a presença de milhares de soldados americanos: Afeganistão e Iraque.

Outros problemas pendentes são o terrorismo jihadista de grupos como o Estado Islâmico; a tensão com a Rússia, cujo presidente, Vladimir Putin, é elogiado pelo magnata; a difícil relação com a China, país que sempre criticou; o estagnado processo de paz no Oriente Médio; o conflito sírio e o programa nuclear norte-coreano.

Resta saber também se Trump reverterá a abertura de Obama com Cuba caso não consiga contrapartidas de Havana; se respeitará o acordo nuclear com o Irã, que tachou como "desastre"; se confiará na Otan e na ONU, organizações que criticou; e se cumprirá sua ameaça de renegociar tratados comerciais internacionais.

Como se pode comprovar, "tornar os EUA grandes de novo" não será fácil, porque "mudar essencialmente um país para melhor é muito complicado", declarou à Efe Nathan Robinson, diretor da revista "Current Affairs" e um dos poucos analistas que previu o triunfo eleitoral do magnata.

Se a grande promessa de Trump ficar somente em "um falatório promocional", advertiu Robinson, "o povo americano cairá em breve na decepção".

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