Relato de advogado que diz ter sido torturado sacode Estado de Direito chinês

Tamara Gil.

Pequim, 22 jan (EFE).- Mais de 30 horas sem dormir, sedento e pendurado em uma cadeira sob a ameaça de morrer caso se movimentasse enquanto lhe jogavam fumaça de tabaco na cara. É parte do relato do advogado Xie Yang sobre sua passagem por um centro de detenção secreto na China, um duro testemunho que mobilizou seu coletivo contra a Polícia.

Xie foi detido em 11 de julho de 2015 e ainda hoje está à espera de julgamento. Antes de ser detido oficialmente, passou seis meses em uma localização indeterminada, sujeito a constantes interrogatórios e abusos psíquicos e físicos, conforme denuncia agora através dos advogados que puderam vê-lo a partir de quando foi transferido para um centro de detenção regular.

Seu relato, que publica por extratos através do site "chinachange", fala de maus-tratos em uma localização que só os agentes conhecem e na qual não há controles; e apresenta vários detalhes sobre as práticas da polícia, assim como seus "supostos nomes".

"É meio que a primeira vez que vemos um testemunho tão completo", destacou a diretora-executiva do grupo China Human Rights Lawyers Concern Group (CHRLCG), Kit Chan, em relato dado à Agência Efe neste domingo.

Chan confirmou que até agora 74 advogados do país concordaram em ajudar a interpor uma denúncia contra as autoridades responsáveis pelos abusos.

Segundo a lei chinesa, os agentes podem manter uma pessoa em um lugar durante seis meses sem dar maiores detalhes ou mesmo permitir a visita de advogados e familiares se considerarem que isso pode obstruir a investigação ou colocar em perigo a segurança do Estado. A medida controversa é duramente criticada por grupos como CHRLCG, que afirmam que esse tipo de cárcere abre espaço para torturas.

"Não pense que você vai sair daqui como advogado. Vai acabar paralítico". Essas foram ameaças dos agentes ao advogado Xie Yang, segundo seu relato, em um de seus interrogatórios, nos quais se sentiu aterrorizado.

De acordo com o testemunho de Xie, ele era vigiado por turnos durante as 24 horas do dia, sendo privado de sono ou do acesso à água por longos períodos, além de ser agredido e receber ameaças contra a mulher e a filha.

Xie conta que durante dias lhe interrogavam mantendo-o mais de 20 horas sentado em uma "cadeira pêndulo", uma espécie de tamborete de plástico no qual seus pés ficavam pendurando e onde deveria permanecer reto, com o risco de ser enforcado.

"Se você se mover, consideraremos que está nos atacando e faremos de tudo para reduzi-lo", conta o advogado, que revelou ter tido que escrever uma confissão na qual garantia ter cometido um crime pela fama, o dinheiro e para se opor ao Partido Comunista, que ocupa o governo, e o socialismo.

Na opinião da diretora de CHRLCG, o depoimento de Xie é "único" quanto à informação que oferece e confirma os temores que grupos como o seu, em defesa dos direitos humanos, tiveram desde que centenas de advogados e ativistas foram detidos, interrogados ou "desapareceram" (como ocorreu durante meio ano com Xie).

A maioria deles foi libertada, e até agora quatro foram sentenciados, enquanto cerca de dez continuam detidos. Alguns foram postos em liberdade após aparecerem em veículos de imprensa confessando seus supostos crimes, em declarações que a ONG considera "forçadas".

Outros saíram da detenção doentes, como ocorre com Li Chunfu, que chegou a sua casa neste mês totalmente marcado e destroçado psicologicamente após quase um ano e meio em mãos das autoridades, segundo relatos de familiares e amigos.

E a onda de detenções não parece ter terminado. No fim do ano, desapareceu um dos advogados de direitos humanos mais destacados do país, Jiang Tianyong, e teme-se que possa ter sido posto em alguns desses lugares não revelados.

Em entrevista dada à Efe pouco antes de desaparecer, Jiang criticava duramente essa medida. "Você está em mãos de pessoas que o interrogam, que podem fazer o que quiserem: não deixar você dormir, não deixar comer, tomar banho... Você está sob o controle deles, não há tipo algum de proteção", criticou.

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