Mães transformam dor em luta contra a insegurança na Argentina

Sara Martos.

Buenos Aires, 24 jan (EFE).- Os últimos casos de jovens assassinados na Argentina reabriram o debate sobre a insegurança dos cidadãos e colocaram em foco a luta de sete mulheres que perderam seus filhos e transformaram sua dor em força para combater o crime e reivindicar justiça.

A morte de Brian, um menino de 14 anos que levou um tiro na véspera do Natal comoveu o país e fez com que o governo estudasse medidas como reduzir a maioridade penal de 16 para 14 anos e reforçar o controle nas fronteiras para evitar a entrada de pessoas com antecedentes criminais.

Infelizmente, antes de Brian foram muitos os jovens que saíram de casa com uma mochila cheia de sonhos que não puderam realizar porque foram sequestrados, cruzaram com um policial que usou a arma antes da palavra ou perderam a vida após lutarem com um agressor sexual.

Esta é a realidade que tiveram que enfrentar os filhos de Silvia Irigaray, Marta Canillas, Viviam Perrone, Isabel Yaconis, Elsa Gómez, Elvira Torres e Nora Iglesias. Sete mães que decidiram enxugar as lágrimas e formar em 2004 a associação Madres del Dolor (Mães da Dor, em tradução livre).

"Não somos advogadas, não somos psicólogas, somos mães com dor e, na verdade, o que mais gostaríamos é que nossas três linhas de telefone não tocassem mais (...) Isso não vai acontecer, mas o que tentamos é trabalhar para que haja menos violência", afirmou Irigaray, fundadora da organização, à Agência Efe.

Em 2016, a associação recebeu uma chuva de ligações, e a cada dia suas voluntárias atendem cerca de 15 telefonemas.

Anos após um policial aposentado matar seu filho Maximiliano Tasca, quando aconteciam os protestos pela crise econômica e política que a Argentina viveu em 2001, Irigaray garante que não sente ódio. Ela está convicta de que "não odiar" e "não agir com violência" é o que faz com que muitos pais queiram falar com elas.

"É preciso ouví-los como nós fomos ouvidas, e daí tentar lhes fazer ver que é uma luta muito grande, porque é o Poder Judiciário (...), é um juiz que vive anos sentado em uma poltrona que não sabe o que aconteceu com nossos filhos, então nunca vão nos entender", comentou Elsa Gómez.

Marta Canillas lembrou que elas escolheram se unir para ajudar outros pais, mas acredita que quando se perde um filho "é tão válido fazer como não fazer". O filho dela, Juan Manuel, foi sequestrado e assassinado depois que o resgate foi pago.

"Os criminosos o deixaram sair (do carro) e o mataram, infelizmente. Com um tiro nas costas (...) Só imagino que ele tenha descido com a esperança da liberdade, foi o primeiro sequestro da democracia", contou.

Canillas reconhece que o caso teve um julgamento exemplar. No entanto, nem todas podem dizer o mesmo.

Isabel Yaconis, por exemplo, jamais soube quem tentou estuprar e acabou matando Lucila, uma menina alegre, que queria ser atriz e da qual 14 anos depois ainda lembra do tom de voz.

Nora Iglesias também continua em busca de justiça por Marcela, que morreu aos seis anos depois que uma escultura de 270 quilos caiu em cima dela em um parque de Buenos Aires.

"Nos devolveram uma menina morta, com todos os ossos quebrados, e ninguém nos deu uma explicação", explicou.

A menina morreu em 1996, e 13 anos depois a Suprema Corte encerrou o caso alegando que era "insubstancial e carente de transcendência". Hoje Nora reivindica justiça em tribunais internacionais.

Em relação a possíveis soluções para acabar com mortes violentas e injustas, elas concordam que é preciso agir e se alegram que o governo argentino tenha convocado especialistas para estudar a diminuição da maioridade penal.

"O menino que matou (...) tem que estar em um lugar adequado para crianças, é preciso obrigá-lo a estudar (...) e incentivá-lo por meio da educação, não perdoá-lo somente porque é criança", afirmou Irigaray.

Nesta linha, Yaconis disse que, "com estes temas", o Congresso "geralmente (...) faz muita filosofia, e com isso não se avança".

"Eu acho que é preciso pegar o touro pelos chifres e (...) fazer alguma coisa por eles e por nossas vidas", acrescentou.

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