Em meio a caos econômico, Rio de Janeiro enfrenta crise de segurança

No Rio de Janeiro

  • Felipe Dana/AP

    Oficiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais) realizaram operação no Complexo da Maré

    Oficiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais) realizaram operação no Complexo da Maré

A cidade do Rio de Janeiro começou 2017 com uma severa crise econômica e outra, ainda mais grave, de segurança: uma média de 14 mortos ao dia em circunstâncias violentas, um ferido de bala a cada oito horas e uma arma apreendida por hora.

Apenas nas três primeiras semanas do ano morreram 16 policiais no estado do Rio e foi registrada uma média de 18 tiroteios diários.

Na última década 31 crianças morreram em decorrência de balas perdidas, 18 delas desde 2014.

A pequena Sofia Braga, de dois anos, foi a última vítima. Foi atingida por um disparo no fim de semana passado enquanto brincava no parque infantil de um restaurante da zona norte da cidade.

Segundo estimativas oficiais, entre janeiro e novembro do ano passado se registraram 4.158 assassinatos ao mês, 14 por dia, quase 20% a mais que no ano anterior.

Os dados são apavorantes e deixam em evidência o fracasso das políticas iniciadas pelas sucessivas administrações estaduais e a necessidade de buscar alternativas para garantir a segurança dos cidadãos.

"Fogo Cruzado", um aplicativo lançado pela Anistia Internacional em julho de 2016 que permite aos cariocas avisar seus vizinhos em tempo real de tiroteios e assaltos para que evitem as áreas perigosas, é precisamente resultado dessa crise de segurança.

Com mais de 50.000 downloads, desde sua criação foram notificados 2.517 avisos de tiroteios que deixaram 539 mortos e 570 feridos.

Apenas quatro dos maiores hospitais de Rio informaram no ano passado do ingresso de 1.133 pessoas feridas de bala, mais que o dobro do ano anterior, quando se registraram 720 casos.

A proliferação e a falta de controle sobre as armas é outro dos grandes problemas: nos últimos dez anos, a polícia apreendeu mais de 83.000 armas que, em sua maioria estavam em poder de narcotraficantes que ainda controlam as favelas do Rio apesar do programa de pacificação impulsionado há oito anos.

Os especialistas advertem do chamativo aumento das armas de alto calibre, especialmente fuzis, apreendidas: de 214 há uma década a 371 no ano passado, o que representa um aumento de 72%.

O volume de armas em circulação é precisamente um dos motivos do aumento da violência, segundo a Anistia Internacional.

"Um alto número de armas em circulação, conflitos entre grupos criminosos, operações policiais que utilizam a lógica do enfrentamento ou o tráfico de drogas são fatores que podem explicar o alto índice de violência armada", denunciou a AI esta semana em comunicado.

"A frequência de tiroteios no Rio de Janeiro é chocante. Os seis primeiros meses do 'Fogo Cruzado' revelam a escalada da violência armada na cidade", declarou Renata Neder, assessora de direitos humanos da Anistia Internacional.

Para o presidente da ONG Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, "estamos vivendo em um contexto de guerra de drogas".

"O Rio de Janeiro é uma cidade que vive nesse clima, tomada por munição e armas, estendidas por toda a região metropolitana", denunciou em declarações à Agência Efe.

Os especialistas pedem uma reflexão sobre as medidas a adotar e os erros das iniciativas iniciadas, como as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) instaladas nas favelas.

"Chama a atenção que em áreas 'pacificadas' como o Complexo da Penha ou do Alemão haja 29 mortos - quatro deles policiais - e 56 feridos - 25 policiais . Estas áreas deveriam ser um exemplo de segurança pública (...) O projeto das UPP não demonstra ser efetivo para acabar com os abusos", afirmou a investigadora e diretora do "Fogo Cruzado", Cecília Olliveira.

"Isto expõe de forma acentuada um modelo igual ao enfrentamento, que causa perdas irreparáveis para os moradores", acrescentou.

Enquanto isso, o secretário de Segurança Pública de Rio, Roberto Sá, defende maiores punições para o uso e venda de armas e aposta em dobrar as penas atuais, que vão de três a seis anos.

Uma solução, no mínimo, parcial perante a monumental crise de segurança que assola o Rio de Janeiro.
 

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