Cultivar empatia, o remendo contra a dura realidade de uma prisão

Carlos Meneses Sánchez.

São Paulo, 4 fev (EFE).- Com uma população carcerária que triplica sua capacidade, em linha com as do resto do Brasil, a prisão de Santo André, em São Paulo, fomenta o trabalho psicológico e a formação entre os detentos, muitos deles à espera, há anos, de uma ansiada sentença que não chega.

A unidade de Santo André tem quatro pavilhões e é um dos 42 centros de detenção provisória espalhados por todo o estado de São Paulo, que abriga praticamente um terço dos 622.000 presos do Brasil.

Dentro de seus muros, preparados para receber um máximo de 534 pessoas, há 1.405 detidos aguardando uma decisão final do juiz que lhes permita recuperar sua liberdade ou ser transferido de maneira definitiva a uma prisão para cumprir sua pena.

"Estou esperando uma sentença há um ano e três meses. Por enquanto, nada se movimenta", disse à Agência Efe Wilson de Araújo (nome fictício), de 54 anos, vestido com uma camiseta branca e calças marrom, da mesma forma que seus demais companheiros.

No caso de Anderson da Silva (nome fictício), de 32, sua estadia em Santo André se estende a três anos e durante esse período recebeu uma sentença de 30. Porém, ainda enfrenta outro processo no estado da Bahia e não pôde ser transferido ainda a uma unidade penitenciária.

Perante os problemas de aglomeração, unidos à frustração pelo tempo de espera, o centro carcerário de Santo André se viu obrigado a habilitar espaços para montar salas de aula de estudo e leitura e oferecer serviços essenciais, do ponto de vista jurídico, nas chamadas Jornadas de Cidadania.

Durante uma semana os detidos podem iniciar o trâmite para obter sua documentação, inscrever-se em cursos de formação profissional, assim como assistir a conferências de motivação, um trabalho que tem continuidade ao longo do ano.

"A conversa de hoje tem a ver com as competências sociais. Falamos sobre a empatia, a importância que tem colocar-se no lugar do outro e como se pode aplicar ao dia a dia", comentou à Efe Graziele Barbosa, gerente regional da Fundação Professor Doutor Manoel Pedro Pimentel, que colabora no evento.

Reunidos em uma pequena sala, 15 detentos interagem com Graziele, que sustenta que "não há outra ferramenta de transformação que não seja a educação" para o sistema penitenciário brasileiro, que no mês passado viveu um dos episódios mais negros de sua história com mais de 130 prisioneiros assassinados.

"Escutamos muito que, com esse ambiente de sala aula, não se sentem mais presos e isso é muito gratificante", ressaltou Graziele, acrescentando que estes programas fazem com que a mente do detento evite entrar em contato com a atmosfera criminosa instalada em muitas prisões.

Anderson e Carlos Santos (nome fictício), outro dos detidos há 14 meses, são ainda monitores de outros cursos, de empreendimento no caso do primeiro, apesar de sua condição de detentos, e participam do clube de leitura do centro.

"A base da vida é o estudo, sem estudo você não é nada", comentou Anderson, que antes era professor de Educação Física.

Ambos não têm dificuldades para lembrar o último livro que leram. Anderson escolheu "Shogun", de James Clavell, um romance de aventuras que se desenvolve no Japão feudal; enquanto Carlos optou por "Tao Te Ching", de Lao Tse, um texto clássico chinês.

"A educação é a única coisa que pode mudar o caráter e a vida daquele que um dia se equivocou", comentou Carlos.

O diretor técnico do centro de Santo André, Antônio Carlos da Silva, afirmou à Efe que a oferta de cursos não alcança a demanda tanto pela falta de infraestrutura como pelo ingente número de detidos que chega a cada dia.

"Alguns crimes de pequeno potencial estão aumentando nossa carga na unidade penitenciária formando uma população carcerária bem maior do que poderia ser", alertou.

Perante esta realidade, São Paulo iniciou em 2015 as chamadas audiências de custódia nas quais é obrigatória a apresentação do suspeito em um prazo de 24 horas perante o juiz para que este decida se o mantém detido ou considera que pode responder ao processo em liberdade, embora nem sempre esses prazos sejam cumpridos.

A população carcerária do Brasil aumentou 85% entre 2004 e 2014, um crescimento exponencial que fez com que 40% dos presos esteja à espera de julgamento, segundo dados da Human Rights Watch (HRW).

Enquanto se reverte esta dura realidade, os funcionários penitenciários de Santo André tentam ser o mais próximo possível dos detidos, estabelecendo uma relação próxima com eles, porque "é mais fácil trabalhar com o diálogo que com a força", como disse à Efe o agente Guilherme Nogueira.

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