Decreto de Trump complica situação de intérpretes que ajudaram EUA no Iraque

Beatriz Pascual Macías.

Washington, 4 fev (EFE).- "Um dia eu e você andaremos juntos por Nova York". Essa promessa tornou o soldado americano Paul Rieckhoff e o intérprete iraquiano Mohammed irmãos de guerra, uma amizade que sobreviveu ao conflito, mas que agora foi colocada em risco pelo novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Enviado ao Iraque entre 2002 e 2004, Rieckhoff considera imoral o decreto de Trump que estabelece um veto temporário à entrada de refugiados e cidadãos de sete países de maioria muçulmana.

Na avaliação do soldado, a ordem, assinada há uma semana, também contradiz os valores dos EUA porque obriga o país a romper promessas que fizeram aos iraquianos quando lutaram ao lado deles com o mesmo uniforme de guerra.

"Ninguém confiará nos soldados dos EUA agora. Ninguém vai cuidar de nós lá fora se nós não fizermos o mesmo", argumentou.

Fundador e diretor da organização sem fins lucrativos Veteranos do Iraque e Afeganistão (IAVA), Rieckhoff lembra com grande respeito dos três intérpretes que o ajudaram a sobreviver no Iraque, especialmente Mohammed.

"Meu intérprete Mohammed e eu costumávamos sair juntos na mesma patrulha. Atiravam contra gente, nos jogavam bombas, uma loucura, mas éramos muito próximos. Um dia ele me disse que gostaria de vir aos EUA, mas que isso nunca ia ocorrer. E eu respondia que levaria ele e sua mulher ao meu bar favorito em Nova York", contou.

O tradutor insistia que isso era uma fantasia, mas, anos depois, Rieckhoff recebeu uma ligação: "Estou no Brooklyn!"

"Não conseguia acreditar. Ele veio até minha casa, andamos por Nova York, foi um sonho para ele e para mim. É um grande americano, uma grande pessoa e tem filhos que nasceram aqui. Ele representa a essência desse país", disse o soldado em entrevista concedida à Agência Efe em frente ao Congresso dos EUA.

Dentro do edifício, Farah al Khalifi oferecia sua dor como prova da lealdade dos iraquianos e pedia aos parlamentares que sejam valentes e lutem contra Donald Trump.

"Como fruto do meu apoio à missão dos EUA para libertar o Iraque, na noite do dia 24 de dezembro de 2006, fui agredida, meu pai foi sequestrado e meu marido assassinado", contou Farah, entre suspiros e pausas, a um grupo de democratas na Câmara dos Representantes.

As irmãs de Farah começaram em 2009 a trabalhar para os americanos. Como consequência, seus maridos pediram o divórcio, abandonaram os filhos e as criticaram: "vocês transformaram nossas famílias em alvo de ataques, não queremos nos associar a vocês".

Após anos de serviço às tropas, Farah conseguiu asilo nos EUA para ela e os filhos. A iraquiana teme, no entanto, pela segurança de sua família e iniciou os trâmites para trazer ao país o pai, o irmão e uma de suas irmãs.

O Iraque é um dos sete países de maioria muçulmana para os quais Trump suspendeu a concessão de vistos durante 90 dias. O presidente, além disso, paralisou por 120 dias o programa de amparo de refugiados. O objetivo seria evitar atentados terroristas no país.

Não houve um anúncio oficial, mas o jornal "The New York Times" informou na última quinta-feira que Trump modificou o decreto para permitir a entrada dos intérpretes iraquianos e suas famílias.

"Busco ajuda e busco respostas para toda essa incerteza. Acho que os terroristas criaram os refugiados. Gostaria de dizer ao presidente que minha família nunca será uma ameaça para a segurança nacional porque nós protegemos os soldados no Iraque e amamos os EUA", disse Farah aos congressistas democratas.

Em vez de serem recebidos como heróis nos EUA, alguns tradutores iraquianos e suas famílias foram detidos no último fim de semana em diferentes partes do mundo e mandados de volta ao Iraque, onde foram ameaçados de morte. Parte da população também os considera "traidores" após a entrada em vigor da ordem de Trump.

Desde 2007, o Departamento de Estado entregou mais de 1.700 vistos aos intérpretes.

A embaixada dos EUA em Bagdá não informou o número de iraquianos afetados pela medida de Trump. No entanto, nos últimos três anos, apenas 19 tradutores e suas famílias ganharam vistos, de acordo com dados do próprio Departamento de Estado.

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