Centenas de crianças refugiadas seguem viajando sozinhas pela rota dos Bálcãs

Vesna Bernardic.

Zagreb, 6 fev (EFE).- Quando há um ano a Europol estimou que pelo menos 10.000 crianças refugiadas desapareceram em 2015 após chegar à Europa, vários apelos foram feitos para protegê-las. No entanto, a situação não mudou e centenas de menores seguem desemparados e caindo nas redes das máfias.

Uma dessas crianças que viajam sozinhas é Afsar, um menino afegão de 16 anos que chegou à Croácia no último dia 16 de dezembro. Entrou no país escondido em uma caminhonete conduzida por traficantes búlgaros na qual quase morreu asfixiado.

Ao inspecionar o veículo em um controle rotineiro de estrada, a polícia encontrou amontoados em seu interior 62 imigrantes ilegais, a maioria intoxicados por monóxido de carbono e em estado de hipotermia. Não tinham comido nada há cinco dias e muitos já estavam inconscientes.

Após passar vários dias em um hospital, Afsar foi levado a um lar para menores em Zagreb, destinado a delinquentes e doentes mentais.

Este órfão esteve durante um mês nessa instituição, sem tradutores e sem que ninguém atendesse sua solicitação de asilo, até que foi contatado por uma ativista da organização humanitária de ajuda a refugiados "Are You Syrious?" (AYS).

"Esta criança, que vem com graves traumas, esteve aqui durante um mês sem tradutor algum, sem que ninguém fizesse algo a respeito de sua solicitação de asilo, sem que fosse incluída em alguma atividade ou escola, sem conversar com um psicólogo", denunciou à Agência Efe Magda Sindicic, representante da AYS.

"Quero asilo. Quero ir à escola, aprender muito. Quero ser jornalista", disse Afsar à Efe em um inglês muito rudimentar.

Abandonados e sem apoio adequado, estas crianças costumam fugir destes tipos de centros de internamento para tentar chegar a países ricos da Europa central. Em sua tentativa, ficam à mercê das redes criminosas de traficantes de pessoas que, ao contrário dos sistemas estatais, se organizaram bem.

"Em nossas conversas com várias crianças, nos dizem que sua viagem se parece realmente com um filme de terror. E quando chegam aqui, não lhes oferecemos soluções. Os traficantes lhes oferecem "soluções" mais rápidas e mais de acordo com o que eles esperavam", reconheceu à Efe Valentina Odacic, do Unicef Croácia.

"Não existe uma base de dados destas crianças. Também não existe uma coordenação entre os países pelos quais passam estas crianças. Não posso falar de números verossímeis, mas é certo que a grande maioria das crianças desaparece. Uma vez que desaparecem, ninguém na Croácia se preocupa deles", confirmou Odacic.

Segundo dados recopilados pela AYS, de 15 de setembro de 2015 até o final de 2016, na Croácia foram registradas 217 crianças, de entre 13 e 18 anos, que viajavam sozinhas. Delas, apenas 30 seguem no país, enquanto se desconhece o que aconteceu com as outras 187.

Embora tanto o Unicef como a AYS afirmem desconhecer onde vão parar estas crianças, a Europol advertiu que muitas caem nas mãos de redes de exploração sexual e trabalho escravo.

Uma dessas crianças desaparecidas é um afegão de 15 anos que, após um mês de espera em Zagreb, sem tradutores nem apoio, fugiu com a intenção de chegar ao Reino Unido, onde vive seu irmão mais velho.

"Ninguém no sistema teve a ideia de perguntar a esta criança se tinha alguém em um país ocidental, para que pudesse se organizar uma reunificação com a família", criticou Magda.

Até o momento nenhuma instituição oficial croata registrou nem sequer seu desaparecimento, informou a AYS.

"Estas crianças são tratadas como uma carga e na realidade são campeões porque encontraram sozinhas o caminho da Síria ou do Afeganistão até a Croácia. Têm um potencial enorme", comentou Odacic.

A prova de que não existe um tratamento adequado a estas crianças, não só nos Bálcãs, mas também países mais ricos, é ilustrada pelo fato de que cada vez com mais frequência estes menores são devolvidos de países ocidentais europeus à Croácia.

"Segundo o procedimento de Dublin, há devoluções de crianças sem acompanhamento da Áustria ou da Suécia. Acredito que nestes casos seria preciso levar em conta qual é o melhor interesse dessas crianças e, realmente, não vejo como pode ser do interesse de uma criança que seja devolvida", ressaltou Odacic.

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