Rússia investiga envenenamento de político opositor com laços nos EUA

Em Moscou

  • Wikimedia Commons

As autoridades russas investigam o suposto envenenamento do político opositor Vladimir Kara-Murza, que está em coma desde a semana passada, justamente quando tinha viagem marcada aos Estados Unidos.

"Hoje recebemos a confirmação da polícia de que o diagnóstico inicial foi 'intoxicação aguda por substância indeterminada'", afirmou Vadim Prokhorov, o advogado do opositor, à imprensa local.

Kara-Murza, correligionário do opositor Boris Nemtsov, assassinado em fevereiro de 2015, e do multimilionário exilado Mikhail Khodorkovski, foi internado na última quinta-feira em estado grave em um hospital de Moscou com sintomas de envenenamento.

Segundo informou nesta terça-feira (7) a agência oficial "RIA Novosti", o Comitê de Instrução abriu uma investigação sobre a base das denúncias divulgadas pelos veículos de imprensa nos últimos dias.

"Isto não significa que seja um caso criminal, mas a investigação já está em andamento", detalhou Prokhorov.

Tanto seu advogado como seu pai, conhecido jornalista, destacaram ontem e hoje que o estado de saúde de Kara-Murza melhorou, especialmente por seus sinais cardíacos e pela resposta de seus rins ao tratamento, embora sua situação continue grave.

O também opositor Ilya Yashin afirmou que os sintomas eram muito similares ao envenenamento que Kara-Murza sofreu em maio de 2015.

Na ocasião, o político também foi internado em coma após ingerir dois remédios totalmente incompatíveis, segundo os médicos que o atenderam.

O próprio Kara-Murza, de 35 anos e que desde então caminha com a ajuda de uma bengala, acredita que em 2015 foi vítima de um envenenamento proposital devido a suas atividades políticas contra o presidente russo, Vladimir Putin.

"Parece um 'déjà vu'. O quadro clínico inicial é o mesmo da última vez. As causas não estão claras. Se na última vez sugeriram que tinha tomado dois remédios simultaneamente, desta vez não o fez", ressaltou Prokhorov.

A mulher do opositor, Yevguenia, afirmou que mostras de sangue, cabelo e unhas de seu marido foram enviadas a um hospital israelense para identificar a "substância desconhecida" que colocou o político pela segunda vez entre a vida e a morte.

Em todo caso, Yevguenia alega que o opositor estava "completamente são" antes de dar entrada há uma semana no hospital, caso que levou vários congressistas americanos a exigir de Moscou uma profunda investigação.

Outra figura muito crítica ao Kremlin, o ex-espião Aleksandr Litvinenko, morreu em 2006 em seu exílio em Londres ao ser envenenado com a substância radioativa polônio-210.

Sua viúva, Marina Litvinenko, afirma que foi o chefe do Kremlin que ordenou o assassinato de seu marido, que tinha acusado os serviços secretos russos de causar uma série de explosões de edifícios residenciais em 1999 para ajudar Putin a chegar à presidência.

Putin não hesitou em tachar de "traidores nacionais" os opositores que criticam o Kremlin por defender seus interesses, seja na Ucrânia ou na Síria.

Kara-Murza, que vive entre Moscou e sua casa nos arredores de Washington, foi internado quando viajava pela Rússia divulgando um documentário sobre Nemtsov, político liberal assassinado a tiros nas proximidades do Kremlin há quase dois anos.

Além de suas duras críticas ao Kremlin, é conhecido seus laços com o ocidente e por ser um dos autores da chamada "Lista Magnitski".

A dita lista levou a Casa Branca a sancionar as pessoas implicadas na detenção, perseguição e morte de Serguei Magnitski, jurista que morreu em uma prisão em 2009 após denunciar a corrupção policial.

Segundo a imprensa local, Kara-Murza também participou da elaboração da "lista Savchenko", que leva o nome da piloto ucraniana Nadezhda Savchenko, processada em 2016 na Rússia por supostamente matar dois jornalistas russos na Ucrânia durante os combates com os separatistas pró-Rússia e posteriormente trocada por dois prisioneiros de guerra russos.

Putin lidera essa lista, assinada por mais de 50 parlamentares europeus, mas que nunca chegou a ser aprovada por Bruxelas.

Kara-Murza também é coordenador da Rússia Aberta, fundação liderada por Khodorkovski, que pediu aos partidos políticos opositores que se organizem para fazer frente ao poder de Putin.

Precisamente, o líder da oposição extraparlamentar, Alexei Navalny, poderia ser impedido de enfrentar a Putin nas eleições presidenciais de 2018 caso seja condenado em um polêmico caso de roubo de madeira, que ele considera fabricado pelo Kremlin.
 

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