Moradores da capital da Somália vivem ameaça de morte cotidiana

Muktar Abdi.

Mogadíscio, 8 fev (EFE).- Xabiibo Adan é uma ambulante que vende de gasolina engarrafada no centro de Mogadíscio, negócio do qual tira seu sustento e dinheiro para pagar o colégio de dois de seus cinco filhos. Assim como outras milhares de pessoas, seu trabalho a expõe diariamente ao perigo de morrer em um atentado do Al Shabab.

Do seu ponto na capital da Somália, Xabiido ouve diariamente o som dos veículos militares, dos carros oficiais ostensivamente escoltados e dos comboios das agências internacionais de cooperação. Frequentemente, pelo menos duas vezes ao mês, é possível ouvir fortes explosões e rajadas de disparos.

O caminhão-bomba que matou 32 trabalhadores no porto no final de dezembro fez tremer a barraca de Xabiido. O carro-bomba e os disparos que assassinaram 22 pessoas há duas semanas em um hotel próximo sacudiu seu coração.

Os jihadistas costumam ter como alvo políticos e diplomatas, mas a maioria de suas vítimas são cidadãos comuns que, como ela, assumem a morte como um medo cotidiano.

"Tenho que vender gasolina. Tenho que conseguir pelo menos US$ 10 para poder dar de comer a meus filhos", contou à Agência Efe Xabiido, que perdeu o marido na guerra civil que começou em 1991, após a derrocada do ditador Muhammad Siad Barre.

Sem um governo efetivo, a Somália caiu nas mãos de senhores da guerra, de grupos armados e de milícias radicais islâmicas, como o grupo Al Shabab.

Apenas no ano passado 659 pessoas morreram em 241 ataques terroristas no país; 90% foi obra do citado grupo islamita, cujo principal alvo continua sendo a capital.

Ameaçados por um perigo real de balas e bombas, os 1,2 milhão de habitantes de Mogadíscio vivem cada dia com a esperança de normalidade.

No começo da manhã, a cidade tem o aspecto de qualquer outra: filas nos pontos de ônibus, comércios abrindo suas maltratadas portas, pessoas indo trabalhar, pais e mães deixando seus filhos na escola.

Também há, e em número cada vez maior, os que vão à praia, onde a tradição de se reunir à beira-mar vence qualquer medo.

"Não tenho outra capacitação profissional, só posso ser taxista. Meus movimentos estão limitados pelos controles de segurança e a restrição de áreas, mas tenho que alimentar minha família", relatou Yassin Hussien Ali, que está especialmente preocupado com o que pode acontecer nesta quarta-feira.

Após cinco adiamentos desde agosto de 2016, os 275 novos deputados do parlamento elegerão o presidente do governo no processo eleitoral mais democrático em 47 anos na Somália, e o Al Shabab prometeu ataques por todo o país.

Segundo o especialista em segurança Abdullahi Ghedi, os dias prévios e posteriores à designação são de confinamento.

"Os cidadãos não podem levar vida normal. Não há escolas nem negócios abertos, todo mundo deve permanecer em suas casas".

Em sua memória está a tentativa de assassinato que sofreu o presidente Hassan Sheikh Mohamud em 2012, quatro dias antes de sua posse, enquanto realizava uma entrevista coletiva em um hotel.

Para quase todo mundo, este "toque de recolher" representa prejuízo para seu ajustado orçamento.

"O governo fecha quase todas as ruas e minhas possibilidades de trabalhar com o táxi ficam muito limitadas. Dependemos de um pequeno ganho diário, se o perdermos nossa cesta básica está em risco", lamentou Yassin.

Apesar de tudo, o motorista deposita seu otimismo no novo governo, convencido de que haverá uma verdadeira ofensiva contra o Al Shabab que abrirá novos distritos. Xabiibo, por outro lado, não parece tão entusiasmada.

"Não espero grandes mudanças porque conhecemos os candidatos e seu trabalho. Não têm nenhuma estratégia para proteger as pessoas mais vulneráveis da Somália".

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