Protestos anticorrupção sem líderes nem programa mostram nova face da Romênia

Raúl Sánchez Costa.

Bucareste, 9 fev (EFE).- Sem líderes, programas nem discursos, uma mobilização popular sem precedentes obrigou o governo social-democrata da Romênia a revogar um polêmico decreto que descriminalizava certos casos de corrupção.

Cristian é um jovem cantor que protestou todas as noites durante a última semana. É a primeira vez que participa de manifestações, mas a tentativa do governo de descriminalizar a corrupção se o prejuízo ao Estado fosse inferior a 44 mil euros o fez aderir à maior onda de protestos desde a queda do comunismo no país, em 1989.

O jovem compõe músicas com uma mensagem contra o suborno, o abuso de poder e o conflito de interesses, que arrancam os aplausos do público, e clama contra uma classe política que legisla em seu próprio benefício.

"Sem pensar, de maneira espontânea, fomos denunciar o abuso de um governo que aprovou um decreto que beneficia seus interesses", declarou à Agência Efe Cristian, que se diz surpreso com a reação dos romenos.

"Já não nos deixamos manipular como antes, aprendemos a ser mais solidários", completou o cantor.

A poucos metros dali estava Maria, uma aposentada que suportou as gélidas temperaturas há uma semana para transmitir uma ideia: "Desejo que todos os avós pensem em seus netos e em seu futuro".

Perto dela se encontrava Ovidiu Petre, um locutor de rádio que foi às manifestações para "lutar pela mudança" e "para que façam seu trabalho como devem".

O comunicador estava acompanhado de Oana, uma mulher de 31 anos que está em uma cadeira de rodas desde que sofreu um acidente há um ano. Isso não a impediu de ir às manifestações na capital romena para mudar a "mentalidade da sociedade".

A idade, a ocupação e até mesmo as ideias políticas não unem as centenas de milhares de romenos que foram às ruas, mas sim a defesa de um princípio no qual acreditam: a luta contra a corrupção.

"São indivíduos autônomos que estão unidos por valores e não temem a mudança. Ao contrário, a veem como uma oportunidade, não um perigo", comentou à Efe o psicólogo Daniel David, autor do livro "Psicologia do povo romeno".

David destacou que na Romênia existe uma grande diferença entre aqueles que cresceram após a queda do comunismo e os que querem que o país seja uma democracia ocidental normal, além da população de mais idade, apegada a valores mais tradicionais.

Enquanto até agora predominavam valores que antepunham interesses pessoais à frente dos coletivos, o psicólogo considera que nos últimos anos os sentimentos para proteger o bem comum e o espírito cívico foram se impondo.

"Estamos em um ponto de inflexão no qual os romenos deixaram claro que desejam participar da maturidade democrática do país", completou David.

Meio milhão de cidadãos - 300 mil em Bucareste - mostraram no último domingo sua indignação contra um decreto que o Executivo justificou pela necessidade de esvaziar as abarrotadas prisões romenas.

Um dos beneficiados da medida teria sido o líder social-democrata Liviu Dragnea, que deve responder perante um tribunal por um caso de corrupção avaliado em 24 mil euros.

Caso o tribunal o condenasse a uma pena de prisão, deveria cumprir a sentença, pois já foi condenado antes por fraude eleitoral.

O decreto incluía também o indulto, também por penas de corrupção, a 2.700 pessoas que estão presas por crimes menores.

"A batalha não terminou com a retirada do decreto, temos que resistir às tentativas que o governo continuará fazendo durante seu mandato (iniciado há pouco mais de um mês)", disse à Efe Sorín Ionita, diretor do laboratório de ideias Expert Forum.

Vários analistas consideram que o Partido Social-Democrata (PSD) tentará buscar novas fórmulas para amenizar a luta contra a corrupção, que enviou à prisão muitos políticos do partido, inclusive o ex-primeiro-ministro Adrian Nastase.

"Os homens com poder e dinheiro não se deixam prender facilmente. Criam escândalos, compram canais de televisão e têm maiorias no parlamento", afirmou com ironia o analista.

As mobilizações populares já conseguiram em 2013 barrar um projeto para explorar uma mina de ouro em uma área protegida da Transilvânia. Mais recentemente, em 2015, o governo social-democrata do primeiro-ministro Victor Ponta renunciou após a morte de 64 pessoas em uma boate de Bucareste.

Os manifestantes protestaram então porque consideravam que as mortes aconteceram devido a irregularidades na segurança do clube noturno que foram toleradas graças à corrupção.

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