"Botão do pânico" vira solução para moradores de Nairóbi denunciarem crimes

Desiré García.

Nairóbi, 13 fev (EFE).- O que você faria se fosse roubado ou atacado em Nairóbi, uma das cidades com a maior taxa de criminalidade da África? Algo que certamente nenhum queniano fará é ligar para o número gratuito de emergências "999", porque ninguém vai atender.

Com essa constatação, um grupo de jovens criou um aplicativo para pedir ajuda em caso de emergência em "Nairobbery" (junção dos termos "Nairóbi" e "roubo"), trocadilho usado pelos locais para se referirem à capital do Quênia.

Em um país onde é perigoso andar pelas ruas depois do pôr do sol, onde 13 mil pessoas morrem por ano em acidentes de carro e onde quase a metade das mulheres sofre violência doméstica, nem os serviços de emergências nem a polícia têm números públicos de atendimento.

Nem mesmo em Nairóbi, onde o nível de criminalidade é o dobro do resto do país, segundo uma recente pesquisa do Instituto Ipsos.

Edwin Inganji, um dos criadores do aplicativo de segurança Usalama, entrou para as estatísticas há quatro anos, quando voltava à noite da universidade com o laptop, a mochila e o celular dentro dela.

"Um grupo de caras surgiu do nada. Levei socos no estômago, caí e eles começaram a roubar as minhas coisas. Percebi que estavam armados, então deixei levarem tudo", relatou.

A desagradável experiência, apesar de muito comum na cidade, foi o estopim para criar o Usalama, a ferramenta que Inganji e três amigos começaram a desenvolver em 2013 e que hoje, dois meses após o lançamento oficial, já foi baixado por mais de três mil pessoas.

"O que eu ia fazer se eles tivessem atirado e ninguém ouvisse os meus gritos?", questionou. A única opção seria ligar para algum amigo ou familiar, porque "ninguém teria respondido" no serviço de emergência, lamentou.

"Eu poderia ter morrido", afirmou, lembrando o que poderia acontecer com ele ou com muitos outros quenianos que, após um acidente de trânsito ou um assalto, esperam horas até a chegada de uma ambulância ou para o atendimento na linha gratuita de emergência.

A polícia queniana encerrou o serviço "999" em 1998, com o argumento de que não tinha funcionários nem instalações suficientes. Depois de 15 anos inativo, a linha foi reestabelecida por ordem judicial, mas isso não significa que funcione.

"Estamos tão acostumados a serviços medíocres que pensamos que isso é o normal", destacou outro cofundador do Usalama, Kenneth Gachukia.

O aplicativo permite ao usuário se conectar rapidamente com algum serviço de ajuda em seis tipos de emergência: assalto à mão armada, invasão de domicílio, roubo de carro com violência, avaria mecânica, violência doméstica ou emergência médica.

Uma interface simples com seis botões que representam cada uma destas situações permite ao dono do telefone se conectar em questão de segundos com ambulâncias, mecânicos ou alguma das dezenas de empresas de segurança particular que prosperam no país.

Diante de uma emergência muito grave não é preciso nem mesmo procurar o ícone na tela: basta agitar três vezes o aparelho para acessar o menu. Se for necessário não chamar a atenção, a vítima pode enviar sua localização e um sinal de alerta aos contatos que ela escolher clicando na tecla de volume.

"É um botão do pânico. O aplicativo é mais efetivo do que o "999" porque te mandará uma ambulância ou um agente de segurança que esteja por perto", ressaltou Inganji.

Os jovens tentam agora apresentar o projeto à polícia queniana, mas não nutrem muitas esperanças.

"O sistema na África é diferente de outros países. Aqui - os serviços públicos de emergências - não sentem que têm responsabilidade social nem que devem melhorar o sistema. Isso representaria ter que trabalhar mais", ironizou Gachukia.

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