Mar-a-Lago: jantar, drinks e, de sobremesa, gabinete de crise com Trump e Abe

Jairo Mejía.

Washington, 13 fev (EFE).- O jantar deste fim de semana entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, no seleto clube de praia de Mar-a-Lago, na Flórida, se transformou em um espetáculo para sócios e clientes, que assistiram à gestão de uma crise mundial entre mojitos e palmeiras.

Ao contrário de outros líderes, Trump não transferiu seus assuntos de governo ao ambiente informal, mas privado de Camp David ou outras discretas propriedades.

O magnata optou por transformar Mar-a-Lago, propriedade do conglomerado empresarial da família Trump, em sua "Casa Branca de inverno", sem manter-se à distância dos sócios do luxuoso complexo hoteleiro, que deixaram de pagar US$ 100.000 para desembolsar o dobro para pertencer a esse exclusivo clube.

Na noite de sábado, o que se supunha que era uma "jantar de trabalho" com Abe se transformou em poucos minutos em um gabinete de crise improvisado pelo qual sobrevoava uma algaravia de assessores, diplomatas, tradutores, garçons, namoradas e milionários membros do clube da cidade de West Palm Beach.

O teste do regime norte-coreano de um míssil de médio alcance que percorreu 500 quilômetros em direção ao Mar do Japão obrigou Trump e Abe a afastar-se da informalidade (na mesa estavam acompanhados de suas esposas, Melania e Aki, respectivamente, e pelo dono do time de futebol New England Patriots, Bob Kraft) para tramitar a resposta à provocação norte-coreana.

Assessores, membros do Conselho de Segurança Nacional e de ambas equipes de governo começaram a distribuir documentos com informação sensível se esquivando de comensais e garçons, segundo afirmaram testemunhas nas redes sociais e a veículos de comunicação como a emissora "CNN".

Por causa da tênue luz das velas, os assessores de Trump e de Abe tiveram que utilizar as luzes de seus telefones (dispositivos vulneráveis a hackers) para discernir relatórios confidenciais, enquanto Trump atendia o telefone ou comentava o transcorrer da crise.

Richard DeAgazio, agente financeiro aposentado e um dos sócios de Mar-a-Lago, estava jantando quando começou a perceber o revoo na mesa do presidente e a tomar nota para seus seguidores no Facebook.

DeAgazio compartilhou várias fotos do caos ocasionado pelo teste norte-coreano, impressionado pelo "fascinante" que é ver uma crise internacional desdobrar-se na varanda de Mar-a-Lago, algo que costuma acontecer a portas fechadas, em salões reservados e repletos de medidas de segurança e sigilo.

O agente financeiro aposentado explicou como posteriormente Abe e Trump com suas respectivas equipes se transferiram a um quarto, para pouco depois montar uma apressada declaração à imprensa para condenar o lançamento norte-coreano, que, segundo o Pentágono, mostra avanços na tecnologia de mísseis do regime de Kim Jong-un.

Abe denunciou a provocação da Coreia do Norte como algo "absolutamente intolerável", enquanto Trump, que segundo imagens feitas pela imprensa tinha já preparadas declarações precisas e detalhadas sobre tecnologia balística e sanções das Nações Unidas, se limitou a tomar o microfone para assegurar que respaldava o Japão "cem por cento".

Após o estranho pronunciamento, Trump não se retirou para despachar com seu assessor de segurança, Michael Flynn, ou o chefe de estratégia, Steve Bannon, presentes no jantar, mas se dirigiu ao baile de casamento de Vanessa Jane Falk e Henry Lindner.

Ambos celebravam seu casamento em Mar-a-Lago e Trump, que tecnicamente ainda é proprietário do complexo, embora não gerente, se aproximou para felicitar os recém-casados e "ordenar" aos eufóricos presentes que voltassem à pista de dança.

Enquanto isso, DeAgazio publicava outra foto curiosa em seu perfil no Facebook - apagado hoje da rede social - com "Rick", que segundo o agente financeiro era o encarregado de cuidar durante a festa da valise com os códigos para que o presidente possa lançar armas nucleares.

A líder da minoria democrata da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, comentou hoje que "não há desculpas para deixar que uma crise internacional se desenvolva diante de um montão de sócios de um clube de campo como se fosse uma cena teatral".

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos