Guerrilheiras das Farc trocam fuzis por fraldas em tempos de paz

Claudia Polanco Yermanos.

Bogotá, 1 mar (EFE).- Um grupo de 148 filhos de guerrilheiras das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), 68 deles já nascidos e 80 em gestação, forma a primeira geração das "crianças da paz" e representa uma mudança radical no estilo de vida destas mulheres, antes privadas do direito à maternidade.

Dentro das Farc, a maior e mais antiga guerrilha da América, com quase sete mil integrantes, agora concentrados em 26 pontos da Colômbia para abandonar as armas, era um risco pensar na maternidade. Mas essa realidade começou a mudar com a assinatura do acordo de paz.

De fato, a organização Women's Link Worldwide pediu em fevereiro de 2016 à Justiça colombiana que julgasse membros de uma das estruturas das Farc por cometer um "crime de guerra" e uma "grave violação dos direitos humanos" por ter cometido pelo menos 150 abortos.

O governo da Espanha também aprovou no último dia 27 de janeiro a extradição de Héctor Albeidis Arboleda, acusado de praticar 300 abortos forçados em guerrilheiras, muitas delas menores de idade, e com até oito meses de gestação, no meio da floresta e sem anestesia.

No entanto, desde que foi declarado o cessar-fogo bilateral e definitivo, em 29 de agosto de 2016, a cúpula da guerrilha suspendeu a proibição às mulheres de engravidar, vigente desde 1992.

"Há nove meses os guerrilheiros começaram a considerar a opção de ter uma nova vida, inclusive de formar uma família, porque até o momento seu projeto mais importante era não morrer no combate diário", declarou em entrevista à Agência Efe o psicólogo e historiador Juan Pablo Aranguren.

Para Aranguren, professor da Universidade de Los Andes, o aumento de gestações evidencia uma "mudança de experiência", já que para muitas dessas mulheres era mais interessante fazer parte do mundo da guerra do que da sociedade civil pela falta de garantias em matéria de saúde, emprego, moradia e educação.

Estas combatentes "encontraram nas Farc a possibilidade de fazer parte de um coletivo, de ter respaldo frente a suas ações e decisões, e de se sentirem cuidadas. Além disso, ao contrário do que ocorre em outros âmbitos, as mulheres chegaram a ter voz de comando na guerrilha", explicou Aranguren.

Em troca, entenderam que ser mulher em um grupo armado ilegal significava renunciar, adiar ou sacrificar aspectos do universo feminino, como a maternidade.

Por isso, agora que a Colômbia vive o pós-conflito, especialistas consideram que será fundamental oferecer às guerrilheiras, seus parceiros e filhos garantias básicas para a reinserção e analisar como a guerra seduziu estas jovens para evitar que a história se repita.

Sobre o assunto, o defensor público, Carlos Negret, pediu recentemente que o governo "garanta o atendimento destas gestações".

Nesse sentido, Negret sugeriu que o Hospital Militar, em Bogotá, que durante décadas atendeu soldados feridos em combate, se encarregue de prestar serviços médicos às grávidas e aos recém-nascidos.

Perante a "avalanche" de bebês, o delegado do governo no Mecanismo de Monitoração e Verificação (MMV) do cessar-fogo, o contra-almirante Orlando Romero, afirmou que "serão criadas zonas de trânsito ao redor dos acampamentos onde vivem os guerrilheiros para que as grávidas possam ser examinadas e determinar o que fazer para ajudá-las".

Uma das futuras novas mães é Verónica, de 15 anos, que com um mês e meio de gravidez disse se sentir "feliz e tranquila" e com a esperança de que "o futuro das crianças que vão nascer seja melhor".

Já Manuela, que militou por anos nas Farc, contou que "embora sempre tenha sido a favor da vida, na guerra era difícil pensar" em procriar, mas com o fim do conflito deseja demonstrar à sua família e à sociedade colombiana em geral que é capaz de sentir "um imenso amor" pelo filho que espera.

Elas, as primeiras 148 mães que a guerrilha terá em tempos de paz, enfrentarão agora o desafio de se redescobrirem como mulheres, de trocar as armas pelas fraldas, e de sonhar em construir uma família.

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