Deslocados de Mossul deixam acampamentos, apesar da ameaça do EI

De Mossul (Iraque)

  • Ahmed Jadallah/ Reuters

    Criança iraquiana observa de dentro do campo de deslocados de Al Jazer

    Criança iraquiana observa de dentro do campo de deslocados de Al Jazer

O risco de serem atingidos por um míssil do grupo terrorista Estado Islâmico a qualquer momento não impediu que milhares de civis retornassem dos acampamentos de deslocados para Mossul, pois preferem essa ameaça a viver no que alguns comparam a um curral.

O iraquiano Ehsem Ali é um dos cerca de 50 mil habitantes de Mossul que preferiram enfrentar os ataques terroristas e morar em uma cidade que carece de água, eletricidade e outros serviços básicos para não ficar sequer um dia a mais nos acampamentos.

"Sim, temos medo dos drones e dos atentados, mas voltei porque queria continuar com a minha vida. Não sou uma ovelha para ficar dentro de uma cerca", explicou Ali.

A lona do acampamento é a única lembrança que Ali quis guardar da "terrível" experiência no campo de deslocados de Al Jazer, no qual teve que buscar refúgio para fugir do EI.

Agora, o plástico grosso com o logotipo da Agência da ONU para Refugiados (Acnur) fica pendurado na parte externa de sua casa no bairro de Aden, no leste de Mossul, onde se tornou um toldo para proteger a residência do forte sol do norte do Iraque.

A família -- Ali, a esposa e dois filhos -- aguentou dois meses no campo de Al Jazer, um dos maiores dos nove montados no Iraque para acolher os civis que saíram de Mossul.

Como lembra Ali, sua família foi alojada em uma pequena tenda, os banheiros eram compartilhados e "não havia privacidade", mas o que mais o incomodava era a proibição de sair das instalações do acampamento.

"Não podíamos sair do campo ou ter um trabalho, eles tiraram nossas carteiras de identidade. Ainda não me devolveram", relatou Ali.

Sem identificação, é praticamente impossível superar os vários postos de controle que existem nas estradas ao redor de Mossul, assim como os que estão espalhados por toda a cidade.

Ali contou que pediu permissão ao administrador do campo para poder sair por dois dias e ir a Erbil para visitar o sobrinho, que havia ficado ferido por um morteiro lançado pelos jihadistas quando tentava fugir da cidade, mas não foi autorizado.

No entanto, essa situação não se repete em todos os acampamentos. Em alguns deles são permitidas a entrada e a saída de seus residentes.

Cerca de 160 mil pessoas continuam alojadas nos campos ao redor de Mossul e nos que foram instalados nas regiões vizinhas do Curdistão e Saladino. Com o início da evacuação do oeste de Mossul no sábado (4), esse número pode aumentar rapidamente.

A ONU espera que 245 mil civis, pelo menos, tentem fugir da parte oeste de Mossul nas próximas semanas. Cerca de 50 mil pessoas, segundo dados da Acnur, retornaram dos campos para as próprias casas, mas mais de mil fizeram o caminho de volta para o acampamento por conta das duras condições de vida em Mossul.

Quando a família de Ali retornou para casa, dois meses e meio depois que o EI expulsou a todos com ameaças, encontrou o imóvel saqueado.

Todos os objetos de valor tinham sido levados e o restante foi danificado. Os jihadistas quebraram até mesmo a coleção de troféus de futebol que Ali havia conquistado quando jovem.

Os danos eram tantos que a família teve que ficar uma semana na casa de um tio enquanto limpava a casa. Depois, Ali e seus parentes se mudaram ainda sem ter uma porta nem vidros nas janelas.

O trabalho de reconstrução ainda não terminou e foram colocados plásticos nas janelas e portas de modo a proteger o interior das baixas temperaturas, que podem chegar abaixo de zero grau pela noite.

Como o restante dos habitantes de Mossul, a família se viu obrigada a alugar um gerador de eletricidade, que custa aproximadamente US$ 40 ao mês, um preço elevado para o Iraque, e cavou um poço para extrair água, que é potável, mas tem sabor terroso.

Em Mossul, Ali pôde voltar ao trabalho: uma loja que repara aparelhos eletrônicos e que divide com um sócio. O estabelecimento havia sido obrigado a fechar as portas por ordem dos jihadistas, que proibiram todas as formas de lazer durante seus dois anos e meio de domínio na cidade.

Como a guerra ainda não acabou, por enquanto Ali tem que se privar de seu passatempo favorito, jogar futebol, por temer que o EI lance uma bomba sobre o campo, como já fez recentemente.
 

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