Fidel Castro segue mais vivo que nunca em Cuba 100 dias após sua morte

Lorena Cantó.

Havana, 6 mar (EFE).- Cem dias após sua morte, e embora Cuba tenha limitado por lei o uso de seu nome e imagem, a figura de Fidel Castro está mais presente que nunca na ilha, onde o fervor pelo ex-presidente começa a ganhar proporções messiânicas que chegam inclusive até a comparação com Jesus Cristo.

Desde a morte do líder da revolução cubana no último dia 25 de novembro aos 90 anos, não há atividade, congresso ou celebração em Cuba que não inclua uma homenagem a Fidel em seu programa, enquanto os veículos de comunicação estatais também lhe dedicam boa parte de seu espaço.

Um bom exemplo desta situação foi a recente Feira do Livro de Havana, o evento cultural mais importante do ano na ilha.

A feira estava dedicada ao Canadá e seus autores, mas os atos e apresentações de vários títulos em torno da figura de Fidel Castro ofuscaram o país convidado.

O panorama contrasta com a última vontade do ex-governante, tornada lei em dezembro do ano passado pelo parlamento cubano: nada de monumentos nem edifícios públicos ou ruas com seu nome, além de uma rigorosa legislação que blindou o uso comercial de sua figura.

Em vida, o polêmico comandante também se opunha ao culto à personalidade, embora paradoxalmente fosse seu estilo pessoal de exercer a autoridade o que lhe fez ser considerado líder para uns e tirano para outros.

"A figura carismática e messiânica de Fidel Castro foi indubitavelmente um dos elementos mais populares da revolução cubana desde seu início na década de 1950 até pelo menos a primeira década do século XXI", afirmou à Agência Efe o diretor do Instituto de Pesquisas Cubanas da Universidade Internacional da Flórida, Jorge Duany.

A questão está em se a revolução cubana pode continuar vivendo sem a presença física do homem que tão passionalmente a encarnou.

Segundo Duany, "o culto e a lealdade ao comandante-em-chefe se transformaram em um dos principais sustentos ideológicos da revolução, embora sua personalidade avassaladora também tenha provocado um intenso desgosto e ressentimento entre seus adversários políticos".

Os veículos de comunicação estatais, até agora, evitaram a palavra "morte" e a substituíram por "desaparecimento físico", um eufemismo que lembra a forma como Fidel Castro empregava a expressão "inevitabilidade biológica".

O jornal "Juventud Rebelde", órgão oficial da União de Jovens Comunistas, foi além no dia 25 de dezembro, dia de Natal em que também se completava um mês da morte do líder cubano: "O tempo não devora redentores", dizia sua capa, em um velado paralelismo com a figura de Jesus Cristo.

Outra nova constante é a assimilação do ex-presidente com o herói independentista José Martí, pai da pátria cubana e junto a cujo túmulo em Santiago foi enterrado Fidel Castro.

Para o opositor moderado Manuel Cuesta Morúa, o que ocorre "parece ser algo contra o testamento de Fidel".

"Parece que em suas últimas vontades não falava dos veículos de comunicação, onde sua presença é constante. É uma brecha que utilizaram (as autoridades da ilha), mas acredito que isso responde à capacidade de esquecimento da sociedade cubana", ponderou o porta-voz da iniciativa democrática "Otro 18", que defende eleições livres no próximo ano.

A cúpula do país busca, segundo sua opinião, perpetuar a mensagem de "não se esqueçam da marca de Fidel Castro" em uma sociedade que "veio dando uma resposta clara nessa direção, muito intuitiva, de dizer que um país não deve ter um sobrenome".

Transmitir essa mensagem às novas gerações representa um desafio especialmente complicado; para uma imensa maioria dos jovens cubanos, o barbado comandante é mais uma figura distante que uma referência ideológica.

Em um estudo recente sobre adolescentes cubanos publicado pelo "Juventud Rebelde", nenhum consultado mencionou Fidel entre suas pessoas mais admiradas.

"A pesquisa parece confirmar um desgaste da figura de Fidel entre as gerações mais jovens de cubanos nascidos e criados depois da revolução, apesar dos esforços governamentais para manter sua memória como herói indiscutível da Cuba pós-revolucionária", destacou Duany.

Esses esforços, para Cuesta Morúa, buscam resistir "o esquecimento e a indiferença social os quais Fidel Castro significou para os cubanos em qualquer dos sentidos".

"Acredito que, no médio prazo, os cubanos teremos uma tendência aos usos de Deus, da religião, e, na medida que não nos resolvam os problemas práticos, o propósito do governo não será eficaz", concluiu.

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