Além dos preconceitos: Judeus ajudam refugiados muçulmanos em Viena

Esther Martín.

Viena, 10 mar (EFE).- A empatia, além das crenças, é capaz de romper preconceitos. Uma associação judaica em Viena, Shalom Alaikum, é o apoio inesperado que encontraram centenas de refugiados muçulmanos que tentam refazer suas vidas na Áustria.

Sentados em círculo sobre um tapete no chão, os membros de uma família de refugiados afegãos lembraram a dura viagem que percorreram até chegarem a Viena. Ao lado destes, enquanto ouvia suas palavras, uma mulher judia fazia carinhos na mais nova, uma bebê de sete meses.

A mulher é Golda Schlaff, uma das responsáveis da Shalom Alaikum, fundada em Viena em 2015 para ajudar os refugiados muçulmanos a se adaptarem a uma nova cultura.

Seu nome é uma mistura entre a palavra em hebraico "Shalom" ("Paz") e a árabe "Alaikum" ("esteja contigo") e foi criada com o objetivo de eliminar os preconceitos entre judeus e muçulmanos.

"Todos temos diferentes maneiras de crer no mesmo Deus", disse à Agência Efe Schlaff, que, até o momento, ajudou mais de 35 famílias, cerca de 200 pessoas, de Afeganistão, Argélia, Iraque, Irã, Nigéria e Síria, com as quais nunca teve qualquer problema por suas crenças distintas.

Apesar de a associação ter sido concebida como judaica e seus responsáveis professarem esta fé, seu valor fundamental é a "tolerância", afirmou Schlaff, por isso acolhem voluntários de qualquer crença.

O financiamento provém de doações particulares e, em outubro do ano passado, receberam um prêmio do Ministério das Relações Exteriores austríaco, dotado com 2 mil euros.

A família de Zohal, que prefere manter seu sobrenome em anonimato, só tem palavras de agradecimento para a Shalom Alaikum por toda a ajuda que receberam, segundo declarou a jovem de 18 anos, que chegou a Viena há um ano e meio com sua avó, seus pais, cinco irmãos e seu noivo, após percorrer centenas de quilômetros a pé desde a província afegã de Parwan.

Na metade da conversa, os familiares de Zohal colocam no centro várias xícaras de chá e maçã recém-cortada. A família perdeu tudo menos duas coisas: o sorriso e a generosidade.

Na lateral de um armário, em frente a uma cama de um dos dois quartos com os quais conta seu apartamento, chama a atenção um grande pôster feito à mão com palavras em alemão como "médico", "dentista", "oftalmologista" e "remédios".

Os pais de Zohal quase não falam alemão, mas sua mãe fez esse mural e o colocou em frente a sua cama para não esquecer um vocabulário que ela considera fundamental para o cuidado das crianças.

"Nós já vivemos. O que queremos é um futuro melhor para nossos filhos", comentou o pai em sua língua materna, enquanto via emocionado como sua filha traduzia para ele um idioma que a menina desconhecia há um ano.

A Shalom Alaikum se encarrega de buscar escolas para as crianças refugiadas que não têm acesso automático à educação obrigatória austríaca por estarem fora da categoria de idade, explicou Schlaff.

Zohal, assim como seu irmão de 17 anos, conseguiu entrar na educação pública e só faltam quatro anos para ela terminar o ensino médio.

Depois, se conseguir entrar na universidade, quer ser médica, o mesmo desejo de dois de seus irmãos menores, de 13 e 12 anos.

Para isso, Zohal sabe que tem que estudar muito, não só alemão, mas também inglês, idioma que aprende de forma autodidata lendo contos de crianças pequenas quando chega em casa, enquanto espera com sua família a entrevista para poder conseguir o direito de asilo.

Também já dominam o alemão as filhas de 10 e 11 anos de Khaled e Asma, do Iraque, que, com muitos quilômetros nas costas, cruzaram a pé as fronteiras de Turquia, Grécia, Macedônia, Sérvia e Hungria até chegarem à Áustria, onde ficaram pela impossibilidade de continuarem avançando, pois estavam extenuados.

Naturais de Bagdá, a família iraquiana tentou encontrar a paz em outras duas cidades de sua nação natal antes de iniciar seu exílio ao exterior, mas isto acabou sendo impossível, explicou Khaled, que também relatou que tiveram que dormir na rua na Grécia.

"Tínhamos muito medo (no Iraque)", lembrou Asma, enquanto servia pãezinhos caseiros e um pedaço de bolo que havia preparado naquela mesma manhã junto com seu marido.

Khaled, mecânico, e Asma, engenheira, não podem trabalhar na Áustria até que consigam o asilo, pelo qual estão esperando há um ano e meio, e utilizam seu tempo para aprender alemão.

Graças à associação, segundo Schlaff, os refugiados podem ter acesso a cursos mais avançados que, na maioria dos casos, o sistema austríaco não cobre, para que possam ter mais oportunidades no mercado de trabalho.

Nenhuma das duas famílias cogita voltar em um futuro próximo a seus países de origem, já que, dada a instabilidade da região, mesmo que haja uma interrupção das hostilidades, não é possível vislumbrar uma paz duradoura, lamentou Khaled.

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