Ciclistas tiram a roupa em São Paulo para mostrar "fragilidade" nas ruas

Carlos Meneses Sánchez.

São Paulo, 11 mar (EFE).- Sem nenhum tipo de pudor e com a intenção de reivindicar seu espaço, dezenas de ciclistas pedalaram nus neste sábado pelo centro de São Paulo para mostrar sua fragilidade aos motoristas e denunciar as de mil de mortes de companheiros que acontecem há cada ano nas vias brasileiras.

"A Paulista é nossa!", gritou um dos participantes antes de começar esta já tradicional manifestação pela principal avenida da cidade.

Assim começou a chamada "Pedalada Pelada", realizada há uma década e que denuncia a vulnerabilidade daqueles que elegem a bicicleta como estilo de vida frente à imprudência dos que optam pelo volante.

"O corpo nu é para mostrar como nos sentimos com o trânsito (...) Nos sentimos nus, não temos nem um para-choque para nos proteger", declarou à Agência Efe Enrique do Espírito Santo, em cujo peito estava escrito a palavra "frágil".

Orgulhosos e sem complexos, homens e mulheres de distintas idades chegaram à Praça do Ciclista, no começo da Avenida Paulista, de onde saíram em marcha com mensagens, como as de Enrique, para os motoristas.

"Obsceno é o trânsito", "Vulgar é sua falta de respeito" foram as frases que alguns estamparam em suas costas em um vermelho intenso, enquanto ao fundo soava a música "Eye Of The Tiger", da banda Survivor.

Segundo o Ministério da Saúde, 32 ciclistas são hospitalizados a cada dia no Brasil vítimas de acidentes de trânsito, muitos deles inclusive circulando pelas ciclovias.

As estatísticas oficiais mostram, além disso, que 1.357 ciclistas morreram em 2014 nas vias do país, e 1.348 em 2013, que são os dois últimos anos para os quais se têm dados definitivos.

A ciclista Sara Francine Teixeira, que participava pela primeira vez do evento, percorre 22 quilômetros sobre duas rodas todos os dias e hoje se despiu para mostrar sua "fragilidade" e evidenciar como seu "corpo está exposto todo o tempo" cada vez que pedala pela cidade.

Para esta jovem, de 27 anos, o ato tem um significado ainda mais reivindicativo pelo assédio que sofre em cima da bicicleta por parte de outros motoristas pelo simples fato de ser mulher.

"Sofremos muito assédio. Tenho que pensar sempre a roupa que vou usar. No verão, se vou de short, é bem chato porque (os motoristas) incomodam e fazem comentários", contou à Efe Sara, que reconheceu que já viveu em cima da bicicleta várias situações que poderiam acabar em tragédia.

Em sua opinião, a solução para reduzir os acidentes está em "olhar para o mais frágil" e citou como exemplo que os ciclistas sempre tratam os pedestres "de uma forma mais cuidadosa".

"Muitas pessoas estão pensando só nelas, todo o tempo, com estresse... É preciso fomentar a mobilidade na rua, a educação viária e ter espaços para as pessoas", acrescentou.

Ao contrário de Sara, Nelson Rodrigues, de 50 anos, foi à "Pedalada Pelada" pela sétima vez, vestido com uma máscara para preservar seu rosto, a fim de pedir "um trânsito mais humanizado, menos carros e mais transporte coletivo".

"Queremos também chamar a atenção porque aqui no Brasil, um país com tanta corrupção e tanta violência, as pessoas se surpreendem mais conosco pelados que com estas outras coisas", lamentou Nelson.

Por sua vez, Luis Antonio, de 43 anos, chamou atenção para o lixo e os carros mal estacionados que costumam ficar no caminho das bicicletas, ao mesmo tempo em que denunciou à Efe os motoristas que abrem as portas de seus veículos sem olhar.

"Um corpo nu tem mais impacto que um corpo caído no chão!", bradou Enrique em coro com as dezenas de ciclistas que lhe acompanhavam nesta manifestação nudista, fartos todos de verem seus companheiros morrer em uma sarjeta pela negligência de outros.

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