Pozzallo, praias limpas e "ponto de crise" migratória no sul da Sicília

Julia R. Arévalo.

Pozzallo (Itália), 11 mar (EFE).- A pequena Pozzallo, destino turístico no sudeste da Sicília por suas praias limpas, abriga um dos principais centros de triagem de imigrantes que chegam à União Europeia (UE), onde é determinado quem terá oportunidade de ficar na Europa.

Em um antigo armazém alfandegário no porto fortemente vigiado por agentes italianos e europeus da agência Frontex, Pozzallo tem um dos quatro "punti di crisi" montados na Itália em resposta à exigência da UE. Mais dois operarão em breve na Sicília.

Nele, os imigrantes são registrados, examinados por um médico, identificados com impressões digitais e fotos e interrogados de forma aleatória, além de receber assistência da agência europeia de asilo EASO e de organizações como Acnur e Save the Children.O objetivo é que "no final do processo no 'hotspot' esteja claro em que categoria se encaixam": com direito a asilo, imigrante econômico ou a "especial" outorgada aos "elegíveis para realocação" dentro da UE, fundamentalmente sírios e eritreus, segundo explicou uma fonte comunitária.

A imprensa italiana faz várias críticas pelas "pressões" da UE sobre a Itália para montar este esquema, onde segundo algumas versões o processo que determinará a sorte do imigrante pode demorar apenas 15 minutos.

"Traumatizadas e esgotadas pela viagem, as pessoas que chegavam eram entrevistadas o mais rápido possível por funcionários da polícia que não tinham formação (...) e que não lhes proporcionavam informações adequadas sobre seus direitos e as consequências jurídicas de suas declarações", denunciou a Anistia Internacional (AI) em seu relatório anual 2016-2017.

Segundo a AI, houve casos de "uso excessivo da força" nestes pontos de crise. Por outro lado, fontes da UE negam e explicam que é entregue um folheto informativo sobre os direitos e obrigações dos imigrantes antes da identificação. "Seu futuro não é determinado no porto", garantem.

Graças aos pontos de crise, 97% dos imigrantes que entraram na Itália em 2016 foram identificados. A tomada de impressões digitais permitirá retorná-los ao país se decidirem seguir a rota rumo ao norte da Europa.

"Queremos evitar (que a Europa seja) um supermercado do asilo", disse uma porta-voz de EASO.

Em Pozzallo chegaram no dia 6 de março 500 de imigrantes resgatados no mar pelos Médicos Sem Fronteiras, a maioria da Nigéria e Bangladesh, e no dia seguinte vários ônibus já transferiam dezenas de nigerianos a outros centros de segundo amparo na Itália, onde legalmente poderão estar por um máximo de dois meses.

Um grupo de jornalistas espanhóis foi o primeiro a entrar na instalação: um navio enorme com beliches azuis para os homens, vigiados por agentes da Frontex e onde se formam grupos ao redor de trabalhadores do Acnur ou da Organização Internacional de Migrações (OIM).

Mulheres e crianças, às quais não houve acesso, são abrigadas em uma zona separada. Ao redor da embarcação, contêineres de mercadorias se converteram em uma creche, um centro de assistência às mulheres e aos jovens e vários escritórios.

"God bless Italy" (Que deus abençoe a Itália), escreveu Yusif durante sua passagem por Pozzallo. Outros deixaram de lembrança desenhos de um Mediterrâneo nublado, de navios e bandeiras, expostos agora em um painel diante do escritório onde são tomadas as impressões digitais.

A maioria dos imigrantes chega ilegal, mas será difícil esconder sua origem - países como Egito, Tunísia ou Nigéria significam expulsão quase imediata da Itália - porque são submetidos a um teste exaustivo que demonstra o conhecimento do país do qual declaram vir. "É preciso ser um James Bond para passar", comentou uma fonte de Frontex.

Em 2016, por exemplo, a Frontex coordenou a repatriação de 10.698 migrantes.

Até o dia 27 de fevereiro, segundo dados da EASO, tinham sido realocados na UE 13.270 refugiados, apenas 8,3% dos 160 mil - fundamentalmente sírios, iraquianos e afegãos - chegados em 2015 à Itália e Grécia que deveriam estar amparados em outros países até setembro.

Após assumir o fracasso do plano de repartição de refugiados - uma fonte comunitária admite que "pode ser prolongado" após setembro -, a Comissão Europeia se foca agora na expulsão de um milhão de imigrantes "econômicos" na UE.

Na Itália, a maioria dos chegados em 2016 procede de Guiné, Costa do Marfim, Nigéria e Gâmbia.

Um policial italiano destinado em Pozzallo, corpulento e de aspecto bonachão, entende que a miséria empurra estes seres humanos a arriscar a vida chegando da Líbia em um bote pelo Mediterrâneo. "Necessitam de ajuda, mas... são tantos!", ponderou.

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