Eco dos protestos desaparece no sexto aniversário da guerra da Síria

Susana Samhan.

Cairo, 14 mar (EFE).- Neyem Abu Nabut não tem esperança no futuro da Síria, onde foi um dos organizadores dos protestos na cidade de Deraa, berço da revolta popular no país que derivou em um conflito e que amanhã completa seis anos, com mais de 321 mil mortos.

"Pedíamos liberdade e democracia. Liberdade de opinião, de expressão e a suspensão da cláusula 8 da Constituição, que estabelecia que o partido Baath era líder do Estado e da sociedade. Pedíamos, acima de tudo, a libertação dos detidos", relembra Nabut, em conversa com a Agência Efe por telefone.

Um mês antes do início das manifestações em Deraa, no sul da Síria, alguns menores de idade tinham sido detidos pela Polícia por grafitar no muro de uma escola: "É sua vez, doutor", em referência ao presidente Bashar al Assad.

Nabut acredita que os jovens escreveram essa mensagem "sem um motivo concreto".

"Na sociedade árabe, temos como hábito pintar nos muros. Alguns deles tinham dez anos. Escreveram isso sem uma razão particular", explica.

No entanto, os jovens foram presos e torturados, e seis anos depois muitos deles, já maiores de idade, fugiram da Síria ou se tornaram combatentes opositores, segundo Nabut.

Para o ativista, os protestos começaram em Deraa - onde 90% da população é sunita - porque "as pessoas desta província são conhecidas por sua dignidade e coragem". No entanto, foi o governo que deu início a "fitna" (discórdia) entre as distintas seitas presentes no país, cujo presidente pertence à alauita (xiita).

Para Nabut, os moradores de Deraa elevaram a voz contra um sistema injusto. Até março de 2011, por exemplo, ele estudava no Instituto de Engenharia e levava uma vida normal, que foi interrompida, como a de muitos sírios, nestes seis anos.

"Saímos de mesquitas, escolas, universidade. Saímos de todos os lugares. Mas em 18 de março, dois jovens que foram protestar e morreram (atingidos por tiros de soldados). Foi então que toda Deraa se voltou para pedir a queda do governador da província por dar ordem para abrir fogo", relembra.

A partir desse momento, Nabut e outros jovens começaram a organizar encontros todas as sextas-feiras, depois da reza semanal, em coordenação com opositores de outras províncias.

"Tínhamos um medo que não era normal. Nós, que estávamos na revolução pacífica, não dormíamos em casa. Estavam todos aterrorizados. No dia em que tomamos a decisão de ir às ruas sabíamos que alguns morreriam, outros seriam detidos e outros iriam embora daqui, mas isso foi há seis anos", lamenta.

Durante os protestos, soldados à paisana se infiltravam entre os manifestantes, agrediam algumas pessoas, fotografavam e "depois diziam que eram grupos terroristas".

Mas o pior ainda estava por vir para Nabut. Cerca de um ano depois do início do levante, ele foi preso quando andava pela rua e levado a um centro de detenção em Damasco.

"Fiquei dois meses lá e fui torturado, humilhado, insultado, com abusos dia e noite", enumera o ativista, que sofreu duros interrogatórios nos quais era perguntado quem tinha incitado "o pensamento de liberdade".

Nabut lembra quando ficou em um espaço de 30 metros com outros presos. "Estavam encadeados e pendurados de cabeça para baixo, com sangue pelo corpo e sinais de tortura. Parecia um matadouro".

Apesar da experiência, depois de sair da prisão, ele continuou com seu trabalho como ativista no campo da informação, já que nunca quis se unir à luta armada.

"Decidi me dedicar a documentar os crimes, os bombardeios contra os civis e os combates", afirma.

Seis anos depois do início da disputa, Deraa vive uma situação difícil.

"Há combates, explosões, bombardeios, não tem água, nem eletricidade. Em resumo, não tem vida", denuncia.

Perante este panorama, ele não acredita que o fim do conflito esteja próximo.

"Não acho que exista futuro na Síria", sentencia.

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