Ye Haiyan, a blogueira que rompeu o tabu da prostituição na China

Tamara Gil.

Pequim, 14 mar (EFE).- Só é preciso US$ 1 para contratar os serviços de uma prostituta na China, mas elas podem sofrer multas de até US$ 700 se forem flagradas com um preservativo. Na clandestinidade, a indústria não para de crescer, mas a perseguição continua, segundo relata a maior defensora deste coletivo.

Ye Haiyan, de 42 anos, conhece de perto a vida das prostitutas chinesas. Embora garanta que nunca teve relações sexuais por dinheiro, conviveu com estas profissionais, trabalhou em um karaokê onde eram oferecidos estes serviços e fez amigas na área.

Foi aí quando começou a ser consciente dos problemas destas mulheres, cuja maioria se dedica na China a este milenário ofício por vontade própria, ao contrário de em outras partes do mundo.

As prostitutas têm medo de levar preservativos porque a polícia os utiliza como evidência, por isso que nos locais de prostituição de menor nível, esse objeto não é utilizado, explicou a ativista em seu estúdio de pintura em Pequim.

"E se forem contagiadas com o vírus HIV, sua situação pode ser muito grave: não pedem tratamento por medo a represálias das autoridades", acrescentou.

Entre quadros de 'galinhas', o termo coloquial com o qual as prostitutas são conhecidas na China, Ye contou com todos os detalhes como o assédio oficial coloca estas mulheres em risco.

A prostituição é ilegal na China e, por exercer este ofício, os praticantes podem ser punidos com multas de 500 iuanes (US$ 72) ou cinco dias de detenção e até 5 mil iuanes (US$ 725) ou 15 dias sob custódia.

Ye expõe os problemas destas mulheres em um blog sob a assinatura "o pardal arruaceiro", que acumula milhares de comentários. "A princípio, gostava de escrever sobre os direitos das mulheres (...) E entre os grupos ameaçados, as prostitutas são as que têm mais problemas", destacou.

As batidas policiais são frequentes neste ambiente, e Ye Haiyan disse que já passou por uma situação dessas. Após o episódio, tentou fundar uma ONG para ajudar o coletivo e, embora tenha conseguido realizar campanhas de prevenção da aids, o constante "assédio" a obrigou a desistir da iniciativa.

A falta de ONGs que ajudam estas profissionais é uma das claras diferenças entre esta indústria na China e em outros países, ressaltou em uma entrevista recente Zhang Lijia, autora de "Lotus", um romance sobre prostituição construído com base em uma ampla pesquisa.

A escritora e jornalista chinesa, que coletou informação nas cidades sulinas de Shenzhen e Dongguan -conhecida como a cidade "do pecado"-, calcula que pelo menos 10 milhões de mulheres chinesas se dedicam a este ofício, e a violência policial é seu "maior temor".

Estas mulheres costumam ser emigrantes rurais, que não têm uma melhor opção para ganhar um salário. "Nunca conheci uma mulher que quisesse voltar ao local de onde provinham. Uma vez que chegam à cidade, não querem voltar", sustentou Zhang.

Há muitos níveis neste mundo subterrâneo e hoje em dia é possível conseguir "espetaculares lucros" graças ao auge econômico da China que, no entanto, trouxe muita desigualdade, segundo a autora.

Daí a importância do ativismo de Ye, o "pardal arruaceiro" cuja história quase chega ao Oscar. Há alguns anos, Wang Nanfu, uma produtora chinesa residente nos EUA decidiu fazer um documentário sobre sua particular batalha e acabou descobrindo um escândalo sobre abusos sexuais de menores por funcionários de um colégio.

Ye fez eco do caso e não duvidou em pedir justiça pelos abusos, convertendo-se em um "alvo" das autoridades por suas populares campanhas na rede.

A perseguição policial e a corrupção do sistema ficaram eternizados no documentário, que chegou neste ano à lista prévia do Oscar. "Eu me senti muito agradecida", disse Ye Haiyan sobre sua momentânea passagem por Hollywood.

O caso de abuso de menores, pelo qual o diretor do colégio foi sentenciado a 13 anos de prisão, a "fez vencer o medo", embora considere que entrar na prisão "é algo inevitável" para cidadãos como ela.

"Se quisermos conseguir uma mudança, pode ser que tenhamos que dar nossa vida por isso. De modo que não temos nada a temer", ponderou.

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