A hercúlea tarefa de ressuscitar os populares e antigos mercados de Aleppo

Jorge Fuentelsaz.

Aleppo (Síria), 15 mar (EFE).- Os labirínticos mercados medievais de Aleppo estão em ruínas. Seus escuros e abobadados corredores parecem túneis sem fim. Ao todo, 60% do comércio e dos templos está destruído. Agora, após o fim da guerra, começa a luta pela reconstrução.

Seus becos e vielas históricas foram verdadeiros campos de batalha na luta entre os rebeldes, que se armaram contra o presidente Bashar al Assad, e as tropas do regime, que não pensaram duas vezes antes de bombardear sem trégua os antigos bairros para sufocar a revolta.

A Grande Mesquita de Aleppo - ou Mesquita Omíada -, que foi reformada pela última vez há nove séculos, é um reflexo dessa disputa implacável. O minarete está em ruínas e os muros, cheios de buracos. Entre tanta escuridão, agravada pela fuligem das queimadas, uma luz leve ilumina uma parede de tijolos erguida pelos rebeldes para proteger o mirabe, uma porta e o túmulo de um santo de tamanha barbárie. Fato é que a frenética atividade típica da região foi substituída pelo silêncio dos escombros e pela penumbra.

O chefe do Departamento de Antiguidades da Síria, Maamun Abdelkarim, tenta olhar a destruição sem perder o otimismo, mas admite ter uma difícil tarefa pela frente: a luta contra o tempo - porque existem materiais frágeis - e contra os empresários inescrupulosos que, em sua opinião, poderiam se aproveitar da situação. Ele teme que homens de negócio se apressem para reconstruir, sem método algum, e pensando apenas no lucro rápido.

"Somos favoráveis à reconstrução e à geração de empregos, mas sempre que isso não seja à custa do patrimônio nem da identidade da cidade. Vamos precisar de muitos anos e muito dinheiro, além de apoio, para recuperar Aleppo de maneira certa e respeitosa", destacou o chefe do Departamento, ao revelar que 25 arquitetos e especialistas em antiguidades estão, atualmente, avaliando os estragos na cidade.

Para Abdelkarim, é importante aproveitar as experiências de outros países, como Alemanha, Líbano e Bósnia, para observar os acertos e evitar que os mesmos erros sejam repetidos.

"Não queremos fazer como a (construtora) Solidere em Beirute, quando transformaram a capital libanesa em Dubai", ressaltou.

Para evitar que a destruição aumente, foi feita uma intervenção emergencial para fixar e consolidar as partes danificadas de edifícios, mas, "paralelamente é preciso um plano nacional e internacional que dê nova vida aos bairros de Aleppo".

A Fundação Agha Khan, que já trabalhou na região, apresentou um plano para restaurar 20% da parte antiga. Abdelkarim afirma que as áreas no entorno da Cidadela de Saladino, construída no século XII, não sofreram tantos danos quanto os mercados vizinhos, porque esteve sempre controlada pelo exército.

Passear pelo castigado pátio da Mesquita Omíada, entre o poço e a pia de abluções, caminhar pelos destruídos becos anexos, onde antes ficavam os movimentados restaurantes turísticos, e atravessar o silêncio dos mercados até a Cidadela é assustador. As ruínas destes monumentos, declarados patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 1986, refletem a falta de sentido de uma guerra civil que completa seis anos e que, neste tempo, matou milhares pessoas e provocou o deslocamento de milhões de sírios.

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