"Buza", o tradicional sorvete de Damasco que a guerra não conseguiu derreter

Jorge Fuentelsaz.

Damasco, 21 mar (EFE).- A Sorveteria Damasco, onde é fabricado desde 1914 o "buza", o tradicional sorvete árabe de creme e pistaches, seguiu mantendo sua tradição, apesar dos seis anos de guerra que chegaram a paralisar temporariamente suas atividades.

É meio-dia e na rua principal do histórico e popular mercado de Al-Hamidiyah Souq muita gente se desloca pela ampla artéria mercantil lotada, repleta de lojas e vigiada por dezenas de militares que revistam minuciosamente os transeuntes nos frequentes postos de controle.

Apesar do frio do final do inverno, a sorveteria administrada por Nader al Afgani, filho de seu fundador, Taisir al Afgani, transborda de clientes, especialmente mulheres, onipresentes em toda a capital, de onde um grande número de homens de entre 20 e 40 anos fugiu para evitar o serviço militar, que é sinônimo de guerra.

"Somos os fundadores do 'buza' tradicional, com pistache e nata. Melhoramos o 'buza' e o tornamos famoso no mundo árabe, como na Jordânia e no Líbano, na Europa e também em feiras em Dubai, Abu Dhabi e Kuwait", contou à Agência Efe com orgulho Al Afgani, cuja sorveteria, no entanto, não é tão antiga e nem conta com o renome da vizinha Al Bakdash, fundada em 1895.

O veterano sorveteiro, que não esconde sua veneração pelo presidente do país, Bashar a-Assad, ressalta que "todos os que viajam à Síria, seja do país que for, tem que visitar o mercado Al-Hamidiyah Souq e provar o sorvete original".

Também mostra com satisfação uma fotografia na qual posa junto ao atual presidente do Líbano, o general Michel Aoun, durante uma visita à sorveteria, embora tenha sido tirada antes de Aoun ser designado presidente, confessou Al Afgani.

O "buza", a versão árabe do "dondurma" turco, é feito à base de leite, creme e "sahleb" (uma farinha fina), além de outros ingredientes, e com o pistache como principal convidado e toque final.

"Trazemos o leite de manhã e colocamos em recipientes onde são introduzidos os ingredientes como 'sahlab' e açúcar, e quando termina este processo, ele é colocado em geladeiras. Depois passamos para os congeladores, onde é batido até se transformar no 'buza' árabe", explicou Al Afgani enquanto não deixava de atender os gulosos clientes.

Uma das mais particulares características deste sorvete é a fase final de sua produção, com contundentes golpes rítmicos efetuados com um enorme toco de madeira, a fim de dar consistência, criar uma camada e que os pistaches adiram bem ao corpo.

Por fim, com a mão, o sorveteiro enrola as lâminas que formou a base de golpes e o "buza" fica pronto para ser cortado, servido e devorado pelos visitantes.

"Gosto do 'buza' sírio desde que era pequena. Sempre que venho a Damasco tenho que comê-lo porque estamos acostumados. Sou de Damasco, mas vivo na Arábia Saudita e sempre que estou de férias venho aqui", disse à Efe Macun ali al Araeishi.

A mesma opinião tem Emanar, que garantiu que cada vez que vai à parte antiga de Damasco toma um sorvete e vai ver a mesquita Omíada.

Al Afgani deseja que seus filhos continuem com a tradição. Um deles, que cursa o quarto ano de Direito, o ajuda atendendo os clientes. O outro, segundo disse, está estudando na Malásia, mas voltará para contribuir para a prosperidade do negócio, que conta com outra loja no bairro de Al Qusur.

"Durante os dois primeiros anos da crise estivemos parados, mas as coisas voltaram a seu lugar e voltamos a ser como éramos. A Síria está bem e tomara que a segurança retorne ao país em breve graças ao presidente Bashar Hafez al Assad", declarou Al Afgani.

Os clientes não deixam de entrar e sair entre os atarefados garçons que levam de um lado para outro as porções de "buza" e de outros tipos de doces e sorvetes.

Entre o amargo sabor da guerra sentida em todos os cantos, levar um "buza" à boca custa apenas 400 libras sírias, um pouco menos de US$ 1.

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