Encontros às cegas em grupo, a última esperança para solteiros do Japão

Antonio Hermosín.

Tóquio, 22 mar (EFE).- Dez mulheres e 20 homens solteiros se reúnem em um bar e alternam breves encontros frente a frente, em uma iniciativa organizada por um município japonês como uma das últimas esperanças para que encontrem um par.

A cena se passa num gélido sábado em um "izakaya" - como são chamados os bares locais - de Ota, um distrito do sul de Tóquio, sob a supervisão de autoridades locais, alarmadas pela queda no número de casamentos a índices históricos, registrada tanto na capital quanto no Japão como um todo.

"Decidi participar porque meu principal propósito para 2017 é encontrar um namorado. Em Tóquio é muito difícil conhecer pessoas, sobretudo depois de passar dos 25 anos", contou à Agência Efe Ikumi Kanda, de 31 anos, que trabalha em uma multinacional de roupas esportivas.

Os participantes desta maratona de encontros que dura até seis horas têm entre 25 e 45 anos e pagam seis mil ienes (R$ 165), com direito a comida e "open bar".

Trata-se de um "machikon", ou encontro grupal às cegas, recentemente criado pelas autoridades locais em parceria com estabelecimentos como bares, restaurantes e cafés.

Estes eventos podem ser considerados uma variação da habitual prática japonesa do "gokon", festas com um pequeno grupo de casais que convidam amigos e amigas que não se conhecem entre si.

Os "machikon", no entanto, podem reunir até milhares de pessoas e são organizados por instituições ou empresas.

Estas "festas de solteiros" se popularizaram no Japão nos últimos cinco anos, e cada vez mais municípios as convocam ou apoiam, entre eles o próprio governo da Região Metropolitana de Tóquio, a maior cidade do país.

Em janeiro de 2015, um grande "machikon" reuniu cerca de dez mil solteiros e solteiras no estádio Tokyo Dome, no maior evento deste tipo até o momento organizado por uma plataforma de empresas de "matchmaking" e especializadas em serviços, um setor em pleno crescimento no Japão.

Embora a dinâmica varie de acordo com o evento e seu tamanho, os "machikon" têm uma primeira parte na qual os participantes se apresentam de forma coletiva, e posteriormente em uma rodada de encontros frente a frente.

Se surgir a química entre um casal, estes trocam telefones. Contudo, em alguns eventos os participantes só podem voltar a se falar em caso de "match", ou seja, quando a "flechada" tenha sido mútua.

"Não me considero uma pessoa muito exigente na hora de procurar um namorado, só faço questão que a outra pessoa saiba escutar e conversar, e que seja divertido", comentou Ikumi.

Encontrar um namorado é um desafio para ela e para muitos jovens japoneses devido a diversos motivos, que vão desde o choque entre os valores tradicionais e modernos atribuídos a homens e a mulheres até longas jornadas de trabalho que deixam pouco tempo livre para socializar.

Em 2015, o número de casamentos na Região Metropolitana de Tóquio foi de 87.167, um dado ínfimo para seus 13,5 milhões de habitantes e o menor desde a Segunda Guerra Mundial, apesar da explosão demográfica que a capital japonesa vive desde então.

Mesmo assim, a região de Tóquio conta com a maior taxa de casamentos do país, com 6,6 casais por cada mil pessoas, frente à média nacional de cinco por mil habitantes.

Junto com a pequena taxa de natalidade e o acelerado envelhecimento demográfico, o baixo número de casamentos é uma grave dor de cabeça para o governo e apresenta um sombrio futuro para a terceira economia mundial.

O próprio Executivo de Tóquio organizou no início de março o simpósio "Enmunsubi 2017" ("Dia dos casamentos 2017"), onde foram discutidas possíveis medidas do setor público e privado que favoreçam os casamentos.

Centenas de "machikon" são realizados a cada noite em todo o Japão, cujos requisitos para participar vão desde a idade até uma altura mínima ou renda.

Ikumi, no entanto, saiu do evento do qual participou decepcionada por não ter conseguido nenhum "match". "Se tivesse que pontuar os candidatos de 1 a 10, nenhum deles passaria dos 3,5" declarou entre risos.

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