Inflação agrava ameaça da fome no Sudão do Sul

Atem Mabior.

Juba, 1 abr (EFE).- A inflação do preço dos alimentos disparou no Sudão do Sul por causa da guerra civil, até o ponto de o salário mensal dos funcionários públicos equivaler ao preço de menos de três quilos de carne, em um país que declarou crise de fome em várias regiões.

No mercado Konyo Konyo - o maior de Juba, capital do país -, os comerciantes sobem os preços todos os dias e os clientes se queixam de que não podem pagar pelos alimentos mais básicos.

"Ganho 1000 libras (cerca de R$ 30) por mês. E às vezes o salário atrasa até dois ou três meses. Como posso cobrir as necessidades da minha família por comida, bebida e moradia?", questinou à Agência Efe o funcionário público Karlos John.

Em Konyo Konyo, o saco de farinha de 50 quilos custa 4.700 libras (R$ 140), 600 libras a mais que na semana passada; o quilo de carne de vaca chega a 360 libras (R$ 10), enquanto o cordeiro, mais caro, chegou ao proibitivo preço para a maioria da população de 500 libras (R$ 15).

A inflação oficial chegou em outubro do ano passado a um pico de 832% anual e, embora desde então tenha diminuído um pouco, no último mês os preços acumularam uma alta de 32%, segundo dados do Centro de Estatísticas do país.

"O preço dos bens muda toda hora. Estamos vendo uma hiperinflação. O preço de uma matéria-prima é um de manhã e outro à noite", disse o diretor do Centro de Estatísticas, David Chan Thiang, em comunicado.

Esta insegurança dos preços, segundo Thiang, contribuiu para uma carestia de provisões nos mercados.

O principal ingrediente da inflação é a aguda desvalorização da libra sul-sudanesa, pois devido à guerra, a produção agrícola foi atingida e é preciso importar a maioria dos alimentos, que provêm principalmente de Uganda, exceto os enlatados, importados do Sudão.

O dólar passou de valer 12 libras em outubro de 2015, antes da liberalização do câmbio, para cerca de 100, embora no mercado negro possa chegar a 130, uma alta que não foi refletida nos salários.

Ibrahim Mohammed, merceeiro, disse à Efe que a falta de vigilância do governo nos mercados também influencia na alta dos preços, que "a cada dia aumentam" e causam perdas "brutais" para os comerciantes.

Peter Samuel, açougueiro, indicou que os preços da carne são fixados pela Câmara de Comércio a seu "capricho", sem estudo nenhum, o que redunda em perdas para os vendedores.

Unida à escalada dos preços, as deficiências das estradas e a falta de segurança dificultam a chegada de provisões a grande parte do país.

As autoridades do Sudão do Sul decretaram no último mês de fevereiro crise de fome em algumas regiões do país devido à guerra e à crise econômica.

A ONU estima que cerca de 100 mil pessoas poderiam morrer de fome em duas regiões do Estado de Unidade (norte), que é rico em petróleo, além de um milhão que necessita de assistência urgente para se salvar no resto do país.

As finanças do país também foram afetadas pela crise do preço do petróleo, a principal fonte de divisas.

A produção de petróleo caiu cerca de 40% em relação aos 240 mil barris que eram produzidos antes da guerra, que começou no final de 2013.

O Sudão do Sul está imerso em uma guerra civil desde dezembro de 2013, entre o governo liderado pelo presidente Salva Kiir e vários grupos armados, entre os quais se destaca o liderado pelo ex-vice-presidente Riek Machar.

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