Mocoa, uma cidade estrangulada pelo rio que lhe deu vida

Gonzalo Domínguez Loeda.

Mocoa (Colômbia), 4 abr (EFE).- O rio Mocoa deu vida à cidade colombiana que leva seu nome, que se beneficiou da generosidade de suas águas e cresceu às suas margens. Porém, no último sábado, o curso d'água acabou arrasando o município em uma catástrofe que deixou mais de 270 mortos.

"Este rio era fonte de riqueza", comentou à Agência Efe Ramiro Alzate Botero, um comerciante da cidade que viu os deslizamentos arrastarem seu estabelecimento.

O povo ficou "preso" à margem do rio, segundo contam, para se proteger das comunidades indígenas que atacavam o primeiro assentamento espanhol.

A seu redor se estende o primeiro círculo amazônico, uma grande riqueza natural que transformou Mocoa em um centro de ecoturismo que recebe milhares de viajantes de todo o planeta, especialmente para conhecer o Parque do Fim do Mundo.

No entanto, a natureza se rebelou contra os cerca de 50 mil habitantes de uma cidade pela qual também passam os rios Sangoyaco e Mulatos, afluentes do Mocoa, que na madrugada do sábado saíram de seu curso.

"Vivi a noite (da tragédia) com muito medo e incerteza, quando começamos a ouvir que estava vindo uma enxurrada, vários amigos nos ajudaram a fechar o negócio e a fugir", contou Alzate.

Na cidade, uma típica capital da região amazônica na qual as comunicações são restritas, as pessoas viviam sob o medo frequente dos deslizamentos e enxurradas.

Esta não é a primeira vez que acontece uma tragédia na cidade, pois os mais antigos lembram de outros deslizamentos nos anos 1940, e inundações em julho de 1974, embora nenhum desses eventos tivesse sido tão terrível como este.

A zona comercial de Mocoa ficou reduzida a escombros. Ao redor de um das pontes do bairro El Porvenir, os donos dos estabelecimentos contabilizam os prejuízos. Ali, a água derrubou casas e fluiu pela rua.

Foi dessa área que Alzate conseguiu escapar para, em uma demonstração admirável de resiliência, trabalhar sem descanso para reconstruir "o pão de quatro ou cinco famílias".

Em paralelo, o homem tenta se sobrepor ao que viu quando retornou horas depois do deslizamento a uma "zona devastada", na qual havia enormes "perdas humanas", e danos incalculáveis em "móveis, utensílios, estabelecimentos, casas, carros e motos".

Também é crítica a situação no bairro de San Miguel, onde a enchente foi tão intensa que destruiu o muro da prisão da cidade.

Agora só resta a cerca eletrificada que separa as celas dos presos daquele que até há poucos dias era um bairro popular no qual viviam centenas de deslocados pelo conflito armado colombiano.

Essa população instável é o que torna difícil estimar o número de habitantes de Mocoa e também o de desaparecidos nos deslizamentos.

O cenário de San Miguel hoje é dantesco. Além de ter arrastado o muro da prisão e as casas dos moradores, o desmoronamento deixou um rastro de destruição com rochas gigantes e troncos no caminho aberto à força pela água.

Os moradores improvisam homenagens aos desaparecidos e cruzam a região com a certeza de que estão enterradas debaixo de seus pés, sob a lama e as rochas, dezenas de pessoas.

Alguns especulam que o papa Francisco, que virá à Colômbia em setembro, visitará a região e a declarará como um cemitério, assim como fez João Paulo II com Armero em 1986, após o deslizamento que deixou cerca de 25 mil mortos.

Um dos sobreviventes do que um dia foi San Miguel é Carlos Alfonso Jácome, nascido em Buenaventura, no litoral do Pacífico, e que foi a Mocoa em busca das oportunidades que a cidade amazônica lhe ofereceram.

Na capital do departamento de Putumayo vendia verduras e teve a sua vida salva pelo futebol. Jácome jogava bola até altas horas da noite quando começaram as chuvas torrenciais que causaram a tragédia.

"Estava jogando e quando cheguei (a San Miguel), olhei para o rio e disse a minha esposa 'vamos embora', mas já era muito tarde, porque o deslizamento já estava em cima", relatou à Efe.

Junto com seus filhos, este homem de 38 anos chegou a um edifício de três andares que aguentou o impacto das águas, mas não consegue se esquecer dos gritos de que ficaram para trás.

Pedidos de ajuda, orações. Jácome até que tentou, mas não foi capaz de ajudá-los, algo que perturba sua consciência enquanto passa as horas no abrigo habilitado pela Cruz Vermelha.

O homem, no entanto, enfrenta seu futuro com integridade e vontade, assim como Carlos Toro, outro comerciante que vê um futuro difícil pela frente, mas trabalha sem descanso enquanto lembra "com nostalgia" dos conhecidos que perdeu.

"Perdi praticamente tudo. Em relação a bens materiais, temos que começar outra vez do zero", admitiu Carlos, que no entanto agradeceu pelo fato de seu núcleo familiar ter sobrevivido à tragédia.

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