Com baldes cheios e vacas magras, Cuba vive pior seca do último século

Sara Gómez Armas.

Ciego de Ávila (Cuba), 10 abr (EFE).- Yolanda, de 74 anos, se mudou há duas semanas da casa onde morou por toda a vida porque há meses não recebia água: "Os vizinhos conseguiam puxar água da rua com bombas, mas elas custam 1.600 pesos (R$ 200) e eu vivo com a minha pensão e a de meu esposo, de 200 pesos cada uma (R$ 25)".

Agora, a idosa vive a três quadras dali, no centro da cidade de Ciego de Ávila (centro de Cuba), em uma casa que recebe água, como todas as outras nessa cidade ultimamente, a cada quatro ou cinco dias, devido à intensa e prolongada seca nessa região, a mais severa do último século.

"Aqui pelo menos chega água normalmente em casa, embora seja a cada cinco dias. Hoje entrou e eu já enchi todas as minhas vasilhas porque ficar sem água não é fácil", contou Yolanda à Agência Efe em sua nova casa, onde dispõe de dois tanques de 55 galões (aproximadamente 200 litros) para uso doméstico, além de várias de garrafas plásticas que usa para cozinhar.

Yolanda é uma das 250 mil pessoas que sofre com a escassez de água na província de Ciego de Ávila, onde os reservatórios estão com 11% de sua capacidade e os lençóis subterrâneos - de onde vêm mais de 70% da água disponível na província - estão com 21%.

"Temos que poupar água ao máximo. Não podemos limpar a casa, só varremos, e temos cuidado para que a água dure por cinco dias", disse à Efe Ricardo Bernal, de 70 anos, que com uma pequena bomba enche duas cisternas grandes de água para sua família e seus vizinhos do andar de acima.

Marisol, uma dona de casa de 43 anos, também conta com a ajuda de seus vizinhos para armazenar água em baldes e panelas, já que o encanamento por onde deveria entrar água em sua casa está entupido: "Há uma tremenda escassez. Se não fosse pelos vizinhos, não poderia nem lavar o rosto".

Cuba enfrenta uma das secas mais graves do último século, que este ano atinge com mais intensidade as regiões centrais da ilha, como Ciego de Ávila, Sancti Spíritus e Camagüey, onde o estado crítico do aquífero não só afeta a população, mas também a agricultura, que teve que apelar para as produções de sequeiro.

"No caso dos tubérculos, plantamos mandioca ao invés de inhame; e nos cítricos, optamos por manga ou goiaba, que precisam de menos água que o abacaxi, que era a fruta mais cultivada na província", explicou à Efe Orisbel Ruiz, subdiretor de Recursos Hidráulicos de Ciego de Ávila, uma das principais províncias agrícolas de Cuba.

Há 900 sistemas de irrigação paralisados, já que só é permitido o uso dos mais eficientes, como a irrigação por gotejamento, por aspersão direta ou por pivô central, detalhou.

Os rios e lagos naturais estão irreconhecíveis e as seis represas artificiais da província, que acumulavam 149 milhões de metros cúbicos, contêm agora pouco mais de 17 milhões.

A exuberante e rica vegetação da ilha caribenha se transformou este ano em uma paisagem árida, com a terra rachada e plantas amareladas, fruto da falta de chuvas, quase inexistentes no centro do país desde 2014.

Para atenuar o problema, além da irrigação eficiente, a instalação de bombas hidráulicas e a restauração de encanamentos para evitar vazamentos, as autoridades do país querem perfurar 700 poços para extrair águas subterrâneas.

Em Ciego de Ávila foram cavados 100 poços, 56 deles para que as poucas chuvas penetrem no subsolo e abasteçam o manto freático.

Os efeitos da seca são sentidos em toda Cuba, onde dos 169 municípios do país, 141 sofrem escassez de água, uma situação que afeta 58.700 cubanos de maneira total e 94 mil parcialmente.

No extremo oeste da ilha, a província de Pinar del Río, a mais chuvosa do país, onde proliferam as plantações de tabaco, também passa por problemas devido à seca, que prejudicou sobretudo o gado.

Pouco acostumados com a falta de chuvas, os pecuaristas da região têm ficado sem pasto e feno para os animais, que agora comem cana-de-açúcar moída, extraída dos resíduos da safra, o que além de gerar mais despesas, não é a alimentação mais adequada.

"Estas vacas dão três litros de leite ao dia, quando deveriam dar cinco ou seis", lamentou o pecuarista Pastor Ortega, que em sua fazenda no povoado de Inclán cria 95 cabeças de gado.

Leonel Álvarez, administrador de uma vacaria estatal, também se queixa da baixa produção do gado, embora esteja contente porque conseguiu evitar perdas maiores: "Há camponeses que não têm nada plantado e seu gado está morrendo".

Em 2016, esta província perdeu mais de 600 cabeças de gado, pois a falta de alimento também afeta a fecundidade das vacas; um sério problema para um país que gasta anualmente US$ 2 bilhões em importações de alimentos.

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