Meio século depois, Livro Vermelho de Mao pode ter parte 2 com Xi Jinping

Antonio Broto.

Pequim, 12 abr (EFE).- Meio século depois de seu enorme sucesso na China, "O Livro Vermelho", de Mao Tsé-Tung, se tornou um mero souvenir para turistas, mas publicações similares sobre o atual presidente, Xi Jinping, tentam imitá-lo.

"O Livro Vermelho" concorre com a Bíblia no quesito livro mais lido da História e, embora os números do turbulento período no qual foi lido - a Revolução Cultural (1966-76) - não sejam confiáveis, é certo que pelo menos um bilhão de cópias foram distribuídas, 10 vezes mais do que os sucessos de Harry Potter.

"Foi o maior ícone da Revolução Cultural", destacou, em conferência sobre o tema realizado em Pequim, o historiador alemão Daniel Leese, que estudou o fenômeno de fanatismo literário durante a elaboração de seu livro "Mao Cult: Rhetoric and Ritual in China's Cultural Revolution" ("Culto a Mao: Retórica e Ritual na Revolução Cultural da China").

Seu sucesso inclusive se estendeu a outros países, onde foi livro de cabeceira de muitos simpatizantes da esquerda na África, na América Latina e na Europa.

"Foi a melhor exportação de poder brando da China desde o século XX até hoje", disse Leese.

Obviamente, não foi a qualidade literária do livro - um breviário com 427 frases do Grande Timoneiro, algumas óbvias, outras incompreensíveis - a responsável por essa fama, mas a pressão social daquele momento, quando era preciso mostrar fervor máximo a Mao decorando páginas inteiras do livro e carregando um exemplar para todas as partes.

"Quando estávamos na escola, todos tinham que recitar as palavras do livro, mas ninguém entendia muito", lembrou a aposentada Rong Lin, de 63 anos, que naquela época teve que trabalhar no campo, como milhões de jovens.

O livro foi compilado por Lin Biao, ministro da Defesa e braço direito de Mao, como um manual para manter a moral dos soldados nos anos 60, quando muitos deles tinham passado grandes penúrias no desastroso "Grande Salto para Frente na Revolução Chinesa" (1958-1962).

"As frases de Mao tentavam responder as cartas que soldados, filhos das crises de fome da época, recebiam de seus familiares", lembrou Leese.

Nascia assim um pequeno livro, para que os soldados pudessem levar entre os pertences, e com a característica capa de plástico que sempre teria, para resistir a batalhas, manobras e outros percalços da dura vida de recruta.

Aquela edição para soldados apareceu em 1964, mas foi com a explosão da Revolução Cultural, em meados de 1966, quando Lin Biao pensou em estendê-lo às massas, que a famosa versão de capa vermelha apareceu, em dezembro do mesmo ano.

Entre 1967 e 1968, o livro viveu seu momento de maior esplendor: as editoras lançavam centenas de milhões de cópias, a distribuição era gratuita e ele se tornou objeto de culto, assim como o Grande Timoneiro.

A adoração chegou a tal ponto que "uma conversa no telefone entre duas pessoas era baseada em frases do livro", contou Leese, que também lembrou que havia competições nacionais para ver qual guarda sabia recitar mais páginas de cor.

O conteúdo é uma contraditória mistura - sempre muito presente em Mao - entre ser rebelde e obedecer ao partido, sem esquecer críticas aos imperialismos americano, japonês e europeu, e os apelos de "continuar a política através da guerra".

Após a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976, e as condenações do regime à Revolução Cultural, o livro se transformou em uma lembrança incômoda. Em 1979, os exemplares foram confiscados, e existem relatos de que 100 milhões de cópias foram trituradas.

Reimpressões ilegais da obra ainda são vendidas para turistas em feiras - enquanto as autoridades fazem vista grossa -, mas os originais são peças raras, pelas quais os nostálgicos pagam valores astronômicos.

Segundo Leese, as versões em turco do livro - traduzido a 20 idiomas - são valiosíssimas. Um exemplar raro de 1963 pode chegar a custar US$ 300 mil (cerca de R$ 940 mil).

Os chineses do pós-maoísmo, no entanto, mal o conhecem. "Acho que tenho um em casa, mas nunca o li", revelou Wang Yuhao, estudante de Comunicação.

Seria complicado lembrar-se da História se não fosse Xi Jinping, um presidente que gosta com frequência de assumir as formas do Grande Timoneiro, ao ponto de tolerar - quem sabe até fomentar - certo culto a sua personalidade.

Nos últimos anos, livros com pensamentos de Xi foram muito promovidos. Um dos exemplos é o grosso "A governança da China", traduzido, entre outros idiomas, para o português e que é dado a jornalistas e delegações estrangeiras.

Mais curioso ainda é o recém-lançado "Pensamentos de Xi Jinping", já à venda em livrarias da China e que foi inclusive promovido em Londres. A cor da capa? Vermelha.

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