Oposição fala de "golpe" e impugna resultado de referendo na Turquia

Ilya U. Topper.

Istambul, 18 abr (EFE).- A tensão e as acusações de irregularidades no referendo do último domingo que decidiu implantar na Turquia um sistema presidencialista aumentaram nesta terça-feira com a oposição falando de "golpe" contra a vontade popular.

"Em 16 de abril o governo e a YSK (Junta Eleitoral Central) perpetraram um golpe contra a vontade popular", denunciou em sua conta no Twitter Kemal Kilicdaroglu, presidente do CHP, partido que impugnou hoje o resultado da consulta.

A implementação do sistema presidencialista, impulsionada pelo partido do governo, o islamita AKP, e pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, ganhou com 51,4% dos votos, contra 48,6% dos que rejeitaram a reforma.

Uma margem tão estreita que o CHP assegura que teria sido favorável ao "não" à reforma se não tivessem sido contabilizados milhões de envelopes de votação que não tinham o lacre obrigatório das mesas eleitorais.

"A recontagem dos votos não lacrados é uma prova clara de que das urnas saiu um 'não'" à reforma, declarou o líder da oposição.

"Estas eleições entrarão para a história como as 'eleições sem lacre', e não as reconhecemos, nem as reconheceremos. Devemos respeitar a vontade do povo e repeti-las", insistiu Kilicdaroglu.

A missão de observadores eleitorais da Organização para a Segurança e a Cooperação em Europa (OSCE) advertiu ontem que a decisão da YSK de validar estes votos era "contra a lei".

A Comissão Europeia assumiu hoje as dúvidas dos observadores e pediu à Turquia que abra "investigações transparentes sobre as declarações de irregularidades identificadas pelos observadores".

A YSK minimizou a questão dos envelopes não lacrados e argumentou que é uma mera questão de "desconhecimento ou negligência" dos membros das mesas, que aconteceu outras vezes, e que essas cédulas são autênticas.

Ömer Çelik, o ministro turco para a União Europeia, assegurou hoje que o processo eleitoral transcorreu com "extrema maturidade democrática" e acusou Bruxelas de agir de forma partidária.

"Eles (Europa) se envolvem com uma ala política e se não conseguirem os resultados que querem, então enumeram muitas anormalidades, que não aconteceria se seu lado tivesse ganhado", declarou.

Por isso, perante uma União Europeia "reacionária" e que ataca Erdogan dia e noite, Çelik reclamou da realização de uma cúpula para analisar o futuro das relações com Bruxelas.

A União de Associações de Advogados de Turquia criticou a decisão da YSK porque o lacre é a única maneira de comprovar a autenticidade do voto, assegura.

Esta associação considera que considerar os envelopes não lacrados supõe "uma violação aberta e grave dos direitos, capaz de influir no resultado".

Um membro da missão de observadores internacionais, Stefan Schennach, senador do Partido Social Democrata Austríaco (SPÖ), denunciou hoje sérias dificuldades durante seu trabalho em Mardin, no sudeste da Turquia.

"Fomos retidos por uma dúzia de policiais em uma sala durante tanto tempo que apenas conseguimos presenciar a recontagem dos últimos 80 votos", declarou Schennach ao serviço de imprensa do SPÖ.

O senador considerou que o plebiscito "não foi justo nem livre" e afirmou que as pessoas que denunciaram à missão as irregularidades sofreram "acusações e ataques verbais".

A organização cívica Hayir ve Ötesi denunciou detalhes que levantam suspeitas de fraude.

Em 961 urnas, muitas situadas em localidades da província de Sanliurfa, foram contabilizados 100% dos votos a favor do "sim", e em alguns casos todas as assinaturas dos votantes pareciam ser da mesma mão, denuncia a organização.

Também chamou a atenção a alta porcentagem do "sim" em municípios do sudeste, nos quais a grande maioria dos votantes são fiéis ao partido esquerdista HDP, opositor à reforma.

Assim, na província de Hakkari, onde o presidente recebeu 16% dos votos quando concorreu ao cargo em 2014, agora 32% votaram a favor da extensão de seus poderes.

As dúvidas sobre a limpeza do plebiscito mantêm a tensão alta, com várias convocações de manifestações, sobretudo em bairros de Istambul que são feudos da esquerda.

Pelo menos 49 pessoas que participam de protestos foram detidas em todo o país desde o último domingo, informou a imprensa local.

O Parlamento referendou hoje a decisão tomada ontem pelo governo de prorrogar por três meses o estado de emergência decretado após o fracassado golpe militar de julho do ano passado.

Os amplos poderes do governo nesta situação, como o fechamento de veículos de comunicação e a demissão de funcionários públicos sem direito a recurso, restringiram severamente a liberdade de assembleia e expressão durante a campanha, denunciou a OSCE.

A ONG Human Rights Watch pediu hoje ao governo que não estenda o estado de emergência e que ponha fim "à campanha repressiva contra os meios de comunicação e contra a oposição pró-curda".

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