Coptas egípcios formam minoria sem plenos direitos e vítima do sectarismo

Azza Guergues.

Cairo, 26 abr (EFE).- Os cristãos coptas, que sofreram dois sangrentos atentados às vésperas da visita do papa Francisco, formam uma minoria de milhões de fiéis no Egito, onde ainda lutam para adquirir todos seus direitos e para resistir ao discurso de ódio que tem se estendido nos últimos anos.

"Estamos em um país islâmico, e todos os dirigentes do Estado são muçulmanos. Portanto, não dão aos cristãos seus direitos, apesar de eles (os governantes) serem trabalhadores e honestos", disse à Agência Efe Maikel Hana, um cristão de 36 anos que trabalha em uma empresa pública de eletricidade.

Como muitas pessoas da minoria copta, Hana apoia o regime do presidente Abdul Fatah al Sisi, que derrubou o presidente islamita Mohamed Mursi em 2013, apesar de considerar que os ataques sectários têm se agravado desde sua chegada ao poder e do fato de que o discurso de ódio contra esta minoria continua difundido.

"No sermão de sexta-feira, ainda dizem que os cristãos são apóstatas, e alguns pedem para matá-los", denunciou Hana, originário da província de Al Minia, no sul de Egito, onde se concentra a maioria dos cristãos do país.

Entre 2011 e 2016, a província sofreu 77 incidentes de sectarismo entre cristãos e muçulmanos, segundo um relatório da ONG Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais.

No entanto, os atentados mais sangrentos da história recente do país contra a minoria copta aconteceram no último Domingo de Ramos contra as catedrais de Tanta e Alexandria, no norte do país, que foram reivindicados pelo grupo terrorista Estado Islâmico (EI) e deixaram pelo menos 48 mortos.

Em entrevista à Agência Efe, o porta-voz da igreja ortodoxa copta, Bules Halim, afirmou que seus cidadãos vivem sem desfrutar de "cidadania completa", mas não quis culpar somente Al Sisi.

"O presidente, sozinho, não é suficiente, tem que haver outras instituições do Estado trabalhando com ele. Se não estiverem todos envolvidos, não haverá resultados", destacou Halim, em referência ao fato de que os coptas não costumam ocupar postos de responsabilidade nas instituições estatais, especialmente nas consideradas sensíveis, como os Ministérios do Interior e da Defesa.

Esta marginalização ocorre apesar do apoio quase sem fissuras que a cúpula eclesiástica copta demonstrou nas últimas décadas às autoridades. Isso porque a Igreja copta, maior minoria religiosa do Oriente Médio, exerce um papel além do religioso e propõe os nomes dos cristãos que o presidente costuma designar posteriormente como parlamentares, além de tentar guiar o voto de seus fiéis antes das eleições.

"Enquanto o Estado continuar tratando os coptas como uma seita religiosa com um único representante, o papa (Teodoro II), continuará ativo o papel político da igreja" explicou Ishaq Ibrahim, responsável pelo programa de Liberdade de Religião e Crença na ONG Iniciativa Egípcia para os Direitos Pessoais.

Além disso, Bules Halim também não acredita que a visita do papa Francisco vá mudar a situação desta minoria, além de que favorecerá um "maior estreitamento das relações entre as duas igrejas".

"Os assuntos dos coptas não repercutem em nível internacional, todos nossos problemas serão solucionado através das instituições do Estado, não de fora (do país). O tema da proteção aos cristãos coptas aqui não repercutirá em reuniões como as que o papa fará", comentou o porta-voz.

O porta-voz copta, além disso, rejeita a palavra "minoria" e ressaltou que os coptas são entre 15 milhões a 18 milhões dentro e fora do país".

Diante da ausência de dados oficiais, Halim argumenta que obteve estas cifras nos registros de 59 catedrais ortodoxas dentro do Egito e de igrejas ortodoxas presentes em 35 países.

Com uma população de 95 milhões de pessoas, o Egito nunca divulgou pesquisas sobre minorias religiosas. Segundo o ativista Ibrahim, devido ao fato de que as autoridades têm "medo que isto lhe obrigue a garantir seus direitos de acordo com seu número".

O ativista indicou que as cifras oficiais apontam que os coptas representam entre 10% e 12% da população.

Entre cautela e grandes medidas de segurança, os coptas continuam indo às igrejas, apesar das ameaças do EI e esperando a visita do papa Francisco, da qual valorizam especialmente o fato de não ter sido cancelada, apesar dos recentes ataques contra os cristãos.

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