Jovens se importam mais com futebol que com promessas eleitorais na Argélia

Nacera Ouabou.

Argel, 3 mai (EFE).- Apesar do esforço do governo, que busca apoio nas urnas para sua reforma constitucional, as eleições parlamentares do dia 4 de maio quase não despertam interesse entre os jovens argelinos, que estão mais interessados em futebol do que no pleito que, ao que tudo indica, terá baixíssima participação.

Isso é percebido a cada dia nas ruas, infestadas de cartazes de candidatos, mas cuja maioria é desconhecida para os cidadãos, e apenas despertam a atenção dos apressados transeuntes.

As eleições também não atraem a atenção nas conversas nas populares cafeterias do país, que ficam abarrotadas assim que o sol se põe. Nesses estabelecimentos, os nomes mais citados nas conversas são os dos jogadores de Real Madrid e Barcelona, e também do novo técnico da seleção nacional argelina, o espanhol Lucas Alcaraz.

"Vou ser sincero, estou desligado das eleições. O futebol ocupa um lugar mais interessante que a política para todas as pessoas", explicou à Agência Efe Mohamed, um jovem bancário torcedor do Barcelona.

Nas tardes de domingo, a pizzaria na rua Cavignac, na capital Argel, costuma ficar cheia de frequentadores, que se dividem em dois espaços, um para torcedores do Real Madrid e outro para os do Barcelona.

"Nem tenho título de eleitor, não estou interessado nas eleições, porque (os políticos) sempre repetem o mesmo discurso, não há qualquer mudança", declarou Rami, um jovem arquiteto de 27 anos e torcedor do Manchester United.

"Os políticos que serão escolhidos têm seus interesses, eles não estão interessados no povo. O essencial para mim é que haja segurança em nosso país, sobre o que acontece no Estado, não tenho ideia", continuou Rami.

Conscientes de que a juventude é o núcleo da sociedade, e diante das previsões que indicam uma participação muito baixa em 4 de maio, o governo argelino lançou uma grande campanha para mobilizar o voto.

Além de reiteradas convocações às urnas através dos meios de comunicação, os imãs das mesquitas se juntaram a causa, ao abraçarem o discurso oficialista na "jutba", o sermão de sexta-feira.

"Os imãs devem trabalhar para convencer e sensibilizar os cidadãos sobre a importância das eleições legislativas, mas observando a neutralidade, já que as leis da República impedem que eles se posicionem a favor de algum partido em suas pregações", declarou na quinta-feira passada o ministro de Assuntos Religiosos, Mohamed Aisa.

Monopolizadas pela Frente de Liberdade Nacional (FLN), partido único até 1989, as eleições legislativas nunca despertaram muito interesse na população argelina, que já sabe de antemão quem será o vencedor.

Em 1997, ano em que o partido oficialista de oposição União Nacional Democrática (RND, sigla em francês) obteve seu melhor resultado, a participação dos eleitores ficou em 36%, o mínimo histórico desde a independência em 1962 que muitos temem que agora se repita e, inclusive, seja superado.

Nas últimas eleições, em 2012, nas quais a FLN do presidente Abdelaziz Bouteflika venceu de forma arrasadora, ao obter 220 das 462 cadeiras do parlamento, contra 64 da RND, segundo colocada com 64 parlamentares, a participação chegou a 43,2%.

Neste ambiente, a maior parte dos partidos encheu seu programa eleitoral com promessas vinculadas às principais preocupações da juventude argelina, que representa quase metade da população.

Desemprego, infraestrutura - principalmente acesso à internet - e luta contra a pobreza são termos que aparecem na maioria deles, junto a outras promessas para resolver a grave crise econômica que o país está sofrendo desde que os preços de petróleo e gás despencaram há três anos.

A extração de hidrocarbonetos - que monopolizam 97% das exportações argelinas - sustenta um sistema de corte socialista no qual o Estado é o principal empregador, quase não há indústrias e os subsídios consomem parte importante do tesouro nacional.

No entanto, poucos parecem acreditar nas receitas que os políticos oferecem ao fazer campanha em cafeterias e bairros com o discurso oficial debaixo do braço: a Argélia enfrenta um período de transição decidida a mudar o modelo energético e econômico diversificando os recursos.

Apáticos e desconfiados, tudo indica que o padrão de voto não vai variar em 4 de maio: é habitual que os idosos e os habitantes das zonas rurais compareçam às urnas, e que a participação mais baixa seja na capital e nas grandes cidades.

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