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Ensinar o Corão ou morrer: a ameaça jihadista a professores em Burkina Fasso

2017-05-10T10:03:00

10/05/2017 10h03

Brahima Ouedraogo.

Uagadugu, 10 mai (EFE).- Dezenas de professores tiveram de deixar suas salas de aula no norte de Burkina Fasso e buscar abrigo em outras regiões do país após meses de constante intimidação por parte de islamitas radicais, que ameaçaram "cortar a garganta" dos docentes que se negarem a ensinar o Corão nas escolas.

A situação está colocando em risco a educação de milhares de crianças da região, onde muitas escolas religiosas já fecharam suas portas por medo da ameaça dos jihadistas.

"Minha preocupação é a vida dos professores", afirmou à Agência Efe Moussa Eric Ouedraogo, responsável de Educação em Nassoumbou, uma pequena localidade rural na província de Soum, perto da fronteira com o Mali.

Segundo os moradores de Nassoumbou, a Al Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI) começou a campanha de terror em dezembro do ano passado, quando destruiu casas de alguns professores que tinham viajado para passar o Natal com suas famílias.

Quando retornaram, viram que suas casas tinham ficado em ruínas e que as escolas também tinham sido atacadas. Era possível ver buracos de tiros nas paredes e nas portas das instituições de ensino.

Recentemente, as autoridades de Burkina Fasso visitaram as regiões rurais da província de Soum e se reuniram com os professores para tentar convencê-los a voltar para a sala de aula.

"Temos que ser realistas e entender que é difícil para um professor que foi ameaçado voltar a trabalhar. Sou totalmente contrário a enviá-los de volta", disse Ouedraogo.

"Inclusive, nos preocupa que as escolas de Djibo (a capital da província) tenham que ser fechadas porque os jihadistas estão chegando à cidade. A mensagem deles já é divulgada por lá", alertou.

Professor de uma escola primária em Djibo, Moumouni Tamboura, afirmou que vive em um "ambiente de terror" na região, que fica a 45 quilômetros do Mali. Segundo ele, os jihadistas aumentaram seus ataques e desafiaram abertamente o governo de Burkina Fasso.

Diante da crise, o governo se comprometeu a reforçar a segurança na região do Sahel e, em particular, na comunidade de Baraboulé, onde os radicais entrarem há alguns dias nas salas de aula e exigiram que os professores deixassem de ensinar francês. Se eles se negassem a ensinar o Corão, a ordem era para que fossem embora.

"Estamos estabelecendo fortes medidas de segurança, e os professores devem saber que o Estado os protege", garantiu o ministro de Segurança de Burkina Fasso, Simon Compaoré.

Apesar de o esquema de segurança ter sido realmente reforçado, como contaram à Efe vários moradores da região, os professores continuam tendo medo e se negaram a voltar a trabalhar.

Há algumas semanas, radicais islamistas emboscaram e mataram várias pessoas acusadas de denunciar ao governo o paradeiro e as ações dos integrantes do grupo jihadista.

Após os ataques, os autores fugiram em direção ao Mali, que nos últimos anos se tornou um país instável e vítima da violência.

Desde 2015, a Al Qaeda do Magrebe Islâmico intensificou os ataques na região depois de ter declarado que os cidadãos do Ocidente, especialmente os franceses, se tornaram um alvo prioritário para a organização.

O mais grave atentado registrado em Burkina Fasso ocorreu em janeiro de 2015, quando 30 pessoas morreram em um ataque a um hotel e um restaurante de Uagadugu por uma célula da Al Qaeda.

Segundo dados do governo de Burkina Fasso, 60 pessoas morreram no país africano em ataques terroristas nos últimos dois anos.