Jacinta Marto, a menina obcecada por salvar os pecadores

Cynthia de Benito.

Lisboa, 12 mai (EFE).- Jacinta Marto, uma das duas crianças pastorinhas testemunhas das aparições marianas que serão canonizadas pelo papa neste sábado, foi a mais obcecada em salvar os pecadores, pelos quais se impôs duras penitências que deram fim a sua até então personalidade risonha.

As descrições da menina - que tinha 7 anos quando começaram os relatos das aparições da Virgem, em maio de 1917 -, destacam sua vitalidade e energia, sua paixão por dançar e sua enorme rivalidade nas brincadeiras, sobretudo com sua prima Lúcia, a terceira pastorinha que presenciou as revelações.

"Era mimada, caprichosa, com muita energia, inquieta, sensível e com espírito aberto de artista", contou à Agência Efe o jornalista Manuel Arouca, um dos poucos especialistas em Portugal sobre Jacinta, vidente de Fátima junto com o irmão Francisco, que também será canonizado, e Lúcia.

Arouca assegura, após pesquisar para seu livro "Jacinta, a profecia", que a menina foi "a que mais se transformou" dos três, já que deixou subitamente seus gostos habituais, como dançar ou brincar, para se entregar a duras penitências, que levava "até o limite" em seu afã por salvar pecadores.

As mais "cotidianas" eram realizar jejum, se negar a beber, inclusive em jornadas particularmente pesadas sob o sol para pastorear e, de forma ocasional, outras penitências "que lhe causavam muita dor física".

Nascida em Aljustrel, em 1910, Jacinta, como praticamente todas as camponesas portuguesas da época, era analfabeta, e sua atividade principal consistia em pastorear o rebanho de ovelhas da família, uma "vida dura" naqueles tempos.

Nos tempos livres, dançava e ouvia com muita atenção as histórias religiosas de Lúcia, que tinha começado a receber rígidas lições de catequese por parte de sua mãe, embora acrescentasse seu tom curioso apresentando perguntas "incômodas".

"Por exemplo, lhe provocava muita confusão compreender como Jesus podia estar escondido na hóstia. Era direta, não se inibia na hora de perguntar o que não lhe parecia que tinha sentido. Para ela, a catequese estava cheia de afirmações sem respostas que a convencessem", disse Arouca.

As aparições se tornaram, acima de tudo, um segredo que ela não podia conter para si. Apesar do pacto estabelecido entre os três pastorinhos, Jacinta foi a primeira a revelar que eles viram uma presença que "brilhava como o sol e era de uma imensa beleza".

A partir desse momento, sua energia para as brincadeiras deu lugar a uma grande "espiritualidade", e a mais nova dos três começou, por causa dos relatos das aparições, a ser "perseguida por pessoas que constantemente queriam tocá-la".

Seus costumes mudaram, ela começou a não gostar que lhe tocassem o cabelo e se dedicou às penitências e orações, preocupada com os pecadores, enquanto se sucediam os interrogatórios da Igreja e do poder político diante da crescente curiosidade dos vizinhos.

No outono de 1918, Jacinta e seu irmão Francisco contraíram a gripe espanhola, que seria a causadora de suas mortes - segundo os videntes, já antecipadas pela Virgem nas aparições.

Após ficar vários meses em sua aldeia natal de Aljustrel e ser atendida em um centro de saúde próximo, a menina foi levada ao hospital Dona Estefânia de Lisboa, onde foi operada, e acabou falecendo em 20 de fevereiro de 1920, poucos dias antes de completar dez anos.

Os restos mortais de Jacinta foram sepultados no cemitério de Ourém, e em setembro de 1935 foram transferidos para o cemitério de Fátima. Por fim, em março de 1951, foram de novo trocados de lugar, desta vez para a Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, onde estão desde então.

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