Impeachment de Trump vira abismo para o qual poucos querem olhar

Jairo Mejía.

Washington, 19 mai (EFE).- O processo de impeachment ganhou mais força nos Estados Unidos com a revelação de que Donald Trump pode ter pressionado o FBI para travar as investigações sobre a ingerência da Rússia nas eleições presidenciais do ano passado e em sua campanha, mas a medida, que nunca teve sucesso, resultaria em um terremoto político e forçaria uma forte divisão entre os políticos republicanos.

Os fatos irrefutáveis se tornaram uma certeza indescritível nos últimos dias em Washington, com a Casa Branca se contradizendo e vazamentos não confirmados. Os legisladores, que podem destituir um presidente, querem garantir que, se esse processo for ativado, a traumática medida tenha provas claras que obriguem um consenso bipartidário.

"O país deve perceber que a gravidade da conduta (do presidente) seja tamanha que o presidente não possa continuar no cargo. (O impeachment) não pode ser visto como um esforço para anular as eleições por outros meios", disse na quarta-feira o congressista democrata Adam Schiff em uma entrevista por rádio.

Tanto legisladores democratas como republicanos pediram cautela e repetiram o mantra de "vejamos aonde os fatos nos levarão" ao falarem sobre o arriscado processo de destituição, iniciado duas vezes na história do país e nunca culminado com sucesso.

O atual momento culminou com a fulminante demissão na semana passada do então diretor do FBI, James Comey, que liderava a investigação sobre as tentativas russas de prejudicar a democrata Hillary Clinton nas eleições, algo que Trump quer que seja deixado de lado.

O novo motivo para os pedidos de impeachment de vários legisladores democratas foram as notícias de que as anotações do ex-diretor do FBI indicam que Trump pediu a ele para deixar de lado a investigação sobre o ex-assessor presidencial Michael Flynn, um dos mais expostos por suas relações com representantes do Kremlin.

Essa é até agora a evidência mais sólida da acusação de "obstrução à Justiça", um ponto que esteve por trás da tentativa de impeachment contra Bill Clinton e da renúncia de Richard Nixon, que abandonou a Casa Branca para não encarar um processo desse tipo.

O primeiro presidente a enfrentar um processo de impeachment foi Andrew Johnson, quase foi destituído por, entre outras coisas, ter demitido o secretário de Guerra, outro paralelismo que pode ser estabelecido com o comportamento de Trump em suas tentativas de levar seu poder Executivo ao limite.

As bases para abordar um possível impeachment têm se consolidado com a nomeação nesta quarta-feira do ex-diretor do FBI Robert Mueller para a investigação sobre a ingerência russa, um fator-chave em um possível processo de destituição contra o presidente.

Mueller terá o poder de imputar, emitir ordens para obter provas e interrogar testemunhas, um trabalho que foi crucial durante o escândalo de Watergate, que deu fim à presidência de Nixon.

O início do processo de impeachment depende da Câmara dos Representantes, dominada pelos republicanos, e só pode finalizar com a saída forçada do chefe de governo com o voto de dois terços do Senado, outra câmara com maioria conservadora e onde o limite de dois terços é uma façanha quase impossível.

Por enquanto, só um congressista republicano, Justin Amash, de Michigan, se mostrou aberto à possibilidade de apoiar um processo de destituição de Trump caso seja provado que o governante pressionou Comey a encerrar a investigação sobre Flynn.

A Câmara dos Representantes pode iniciar o processo com uma maioria simples, o que significaria que mais de 20 republicanos deveriam sair da disciplina da formação, algo improvável, a não ser que em 2018, quando ocorrerem as eleições legislativas, os democratas retomem o controle do Congresso.

Mas tudo dependeria de provas sobre a vontade presidencial de obstruir a justiça ou alguma outra acusação grave, como o possível conluio com o governo russo, algo do que ainda não há provas contra o presidente. Caso Trump seja destituído, o poder será passado ao vice-presidente, Mike Pence.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos